22.10.07

UM POEMA PARA FIAMA





UM POEMA PARA FIAMA (Labirinto, 2007)

A MÚSICA

A música partilha com a flor
a carne que se alaga como um copo.
A música é um rizoma atómico
cheia de sílabas grossas e finas
no peito maduro da onda.

Por isso a onda cai e a flor
também. E se te digo sei que ficas
triste e é quando substituis essa
geração de força por dois pequenos
vasos à entrada do teu dorso (e qual
és tu e qual sou eu é uma haste subindo)

Do teu lado esquerdo é dia.
O vestido é branco e aponta
a cidade a que chegas com os
dedos, rodando os ombros mas
não a cabeça. O teu olhar
é uma ferida musical sem verbo fixo:
a penumbra bate às vezes na
pálpebra, outras na imaginação.

A queda gera o seu próprio
impulso, como se fosse o preen-
chimento de uma forma: chama-se amor
e serve para os ouvintes ouvirem o esbracejar
do desejo, esses versos de asa silenciosa-
ouves?

Há poetas azuis que julgam que a
coerência é um pardal azul (da goela
até aos pés). Normalmente limpam os óculos
com coerência, em vez de com (enfim)
e depois vêem o mesmo pardal, a todas
as horas do dia e da noite, sentado azul-
mente sobre o seu nariz azul.

Pela direita, dizes que os versos
não caem se mudares constantemente
o chão. Mas os sonhos sim, e que a transla-
ção do vento sabe do remorso dos bichos mais
pequenos: procura as palavras junto ao chão
e se não me vires,
é porque o silêncio é também a música
e canto-a sem nome
para ti


Rui Costa

10 Comments:

At 6:58 da tarde, Blogger blimunda said...

olha, rui, recebe um beijinho emocionado: é muito lindo este poema

 
At 7:19 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Muito bonito Rui, se a Fiama lesse este poema certamente gostaria,mas não sei se ela está ligada à net.Mais uma vez é muito bonito este poema Rui,ofereceste-te à Fiama...
Um abraço
Joaquim

 
At 8:12 da tarde, Anonymous amac said...

porra. muito bom.

 
At 8:38 da tarde, Anonymous Anónimo said...

brutal. uma homenagem merecedora da homenageada.

apetece dizer porra. e eu nunca digo porra. muito bom mesmo.

as metáforas... o raciocínio... esse lacinante modo de dizer... muito bom.

ana s.

 
At 11:42 da tarde, Blogger etanol said...

Muito bom!
Maria João

 
At 12:13 da manhã, Anonymous Patrícia said...

É muito belo...obrigada por o partilhares.

 
At 10:18 da manhã, Blogger manuel a. domingos said...

sem dúvida, muito bom.

 
At 11:30 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Deixo-te o som do meu comentário silencioso...
PB

 
At 8:33 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Obrigado a todos pelos comentários.

Rui Costa

 
At 9:44 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Fosca-se Rui ,eu não sabia que a Fiama já tinha morrido:perdão,
Mas continua a ser um poema muito bonito!
Abraço
Joaquim

 

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