1.10.07

O PÉ

Em todos os lugares, é
sempre pé: pé de mundo
pé de mando, pé de mar. Sem par
é pé de coxo. Pé
parado. Morto em pé.
Por vezes
os pés desaparecem
durante anos: esconderam-nos
em claustros, chaminés, prisões.

O pé no fundo
é estranho: de noite
parece um ser solar. Um pé
sem perna já foi mais frequente do que pensam.
Um pé de casa é uma vírgula posta
entre o campo e as estrelas. Um pé arabesco
é um pé a cavalo. E um pé que se preza
ama a liberdade. De contrário é pé chato
pé de planeta aziago.
Um pé sem suor é pé desafinado.
Lagosta, pé carregado
O pé costuma ver (o pé tem sorte)
o começo da vida, ou o fim do corpo:
ir de pés para a frente
fazendo finca-pé
à própria morte.

O pé de flor vive em todo o lado.
Planta de pé é um silêncio vegetal.
Pé de cabra é bom na magia oculta.
O pé de cão tem horror aos polícias.
O pé de amor é um bicho esquisito: mede
os outros pelo seu tamanho – pé universal.

Pé ou mão? Doce animal
dentro do coração.

Nicolau Saião

Nicolau Saião, pseudónimo literário de Francisco Ludovino Cleto Garção, nasceu em 1946 em Monforte do Alentejo. Exerceu as profissões de meteorologista, jornalista e escriturário, sendo actualmente funcionário do Centro de Estudos “José Régio” de Portalegre, cidade onde reside desde os três anos de idade. Poeta e pintor, tem colaboração dispersa por vários jornais e revistas. Está também representado em várias antologias. Em 1990 a Associação Portuguesa de Escritores atribuiu o Prémio Revelação/Poesia ao seu livro Os Objectos Inquietantes, publicado pela Editorial Caminho em 1992.

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