29.10.07

virgenetas.7

Já o avô Alcides, e o bisavô Alcides, bem sabiam: aquela que não serve para os outros para nós também não há-de servir. Era o que faltava, encalcetar o travasso sem o mínimo de garantias de a criatura não ser daquelas insufláveis, de botox ou silicónia, com a alergia ao plástico que me vem de família, e as avarias dos fenómenos eléctricos causados pelo turismo das cegonhas, e o rebentamento das mamas nos aviões, e do rendeiro das laurindas nas igrejas.

E os problemas hermenêuticos que advêm da conversa expurgada de segundos sentidos, que são aqueles que interessam, e ela a perguntar “E de música, gostas?” e eu a pensar na pregação de São Francisco aos pássaros, com eles todos alinhados no poleiro a entoar a flauta mágica prós dois que se comiam debaixo das saias do velho. Ou do padre Vieira aos peixes, batendo a pívea eterna que ainda hoje se reflecte na subida das águas, mar de gosma, para glória de deus, pescada de rabo na boca e asa de querubim no cu.

E eu a responder-lhe “Gosto muito, de música e do assento etéreo onde subiste, os decassílabos, o adágio dos cisnes flutuantes, as esferas recalcitrantes da cidade suspensa; e sempre, oh sempre, as alheiras perdidas de Mirandela, a areia do Nilo…”. E ela a semicerrar os olhos e a imaginar a bondade e a minha atenção às belezas do mundo. Passa uma hora e eu continuando, “Não esquecendo, claro, a bardajona da tua mãe, que nem te ensinou a escangalhar a mona prós fofos como eu”, e pronto, era o segundo sentido, o que realmente importa, o único, e a moça lá se desanuviou e eu até pensei que afinal o virgem era eu, não me tinha sucedido antes mas é assim a vida, uma caixa de esmolas, se está vazia ao menos aproveita-se a caixa.


Alcides

1 Comments:

At 11:40 da tarde, Blogger Luis Eme said...

Grande Alcides!

 

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