20.2.08

DI VERSOS, N.º 12

Di Versos, N.º 12

Acabou de me chegar às mãos o n.º 12 da revista Di Versos – Poesia e Tradução, onde tive o prazer de colaborar com singelas versões de quatro poemas do chileno Nicanor Parra. Os poemas em causa são: Solo de piano, Mudanças de nome, Teste e Cartas do poeta que dorme numa cadeira. A revista Di Versos é coordenada por Jorge Vilhena Mesquita e José Carlos Marques, tendo estado na sua fundação, além dos actuais coordenadores, Carlos Leite e Manuel Resende. Neste número poderão encontrar, além da minha colaboração, poemas de António José Borges, António Salvado, Avelino de Sousa, César Vallejo e Juan Ramón Jiménez (traduzidos por Nicolau Saião), Claudio Rodríguez e Ricardo Paseyro (traduzidos por António Salvado), Cláudio Willer, Cristino Cortes, Dante (traduzido por Avelino de Sousa), e. e. cummings e Seamus Heaney (traduzidos por João Tomaz Parreira), Giannis Ritsos e René Char (traduzidos por José Carlos Marques), João Miguel Henriques, J. T. Parreira, Nicolau Saião, Rafael Rocha Daud, Rui Tinoco e Tomas Tranströmer (traduzido por José Carlos Marques, Anna Olsson e Sérgio Lopes). Deixo uma das minhas versões de Nicanor Parra:

SOLO DE PIANO

Já que a vida do homem não é senão uma acção à distância,
Um pouco de espuma que brilha no interior de um vaso;
Já que as árvores não são senão móveis que se agitam:
Não são senão cadeiras e mesas em movimento perpétuo;
Já que nós próprios não somos mais que seres
(como o deus mesmo não é outra coisa que deus);
Já que não falamos para sermos escutados
Senão para que os demais falem
E o eco é anterior às vozes que o produzem;
Já que nem sequer temos o consolo de um caos
No jardim que boceja e que se enche de ar,
Um quebra-cabeças que é preciso resolver antes de morrer
Para depois poder ressuscitar tranquilamente
Quando se abusou da mulher;
Já que também existe um céu no inferno,
Deixai que também eu diga algumas coisas:

Eu quero fazer um ruído com os pés
E quero que a minha alma encontre o seu corpo.

in «Poemas Y Antipoemas» (1954)


Nicanor Parra nasceu em San Fabián de Alico, localidade perto de Chillán, no sul do Chile, em 1914. Filho de um professor primário e de uma costureira, cresceu no seio de uma família de artistas, onde se destaca a cantora Violeta Parra. Nicanor estudou Matemática e Física no Instituto Pedagógico da Universidade do Chile. Mais tarde, viverá nos Estados Unidos e em Inglaterra, onde se dedicará à Cosmologia na Universidade de Oxford. Grande parte da sua actividade profissional resume-se ao exercício da docência. Interessa-se pela poesia surrealista desde muito cedo, sendo posteriormente um leitor atento dos poetas anglófonos. Iniciou a sua carreira poética junto do grupo dos chamados «Poetas da claridade», advogando uma poesia ao alcance de todos, espontânea e inimiga do hermetismo. Publica a sua primeira obra, «Cancionero sin nombre», em 1937, obtendo o Prémio Municipal de Poesia. Mas a sua obra afirmar-se-á como uma das mais marcantes no contexto da poesia hispano-americana a partir de «Poemas y antipoemas» (1954), onde propõe uma “antipoesia” que resulta da fusão do chamado poema popular com a ironia, a força transgressora, o absurdo e o humor negro, a iconoclastia de um certo surrealismo, na sua raiz Dadá, mais “dessacralizador e corrosivo”.

1 Comments:

At 3:26 da tarde, Blogger isabel mendes ferreira said...

Já que a vida do homem não é senão uma acção à distância,
Um pouco de espuma que brilha no interior de um vaso;
Já que as árvores não são senão móveis que se agitam:
_____________________________já
que, vim da Tradução da Memória, a Poesia é um rasto de luz e poeira...
aqui estou,
a passear neste seu chão.

_______________gratíssima com a descoberta.

.

cordialmente.

 

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