27.3.08

501 GANESH BEEDIES

Entre a Islândia e a Índia ficam apenas alguns maços de beedies. Chamo os lábios à erva, queimo a língua, aqueço os dedos, os pulmões queixam-se das alergias, as alergias andam muito excitadas. Estão sempre com queixas, os pulmões. Quando andava pelas índias, praticante de yôga, queixavam-se menos. Mas saíam-me mais caros. Depois comprei um CD do mestre DeRose, sentei-me numa sala devidamente despojada, queimei os incensos e, com uma mini escondida entre as pernas, fui entoando mantras ao ritmo das queixas dos pulmões. Não fosse a mini, garanto-vos, tinha dado em doido. E as alergias também. A mini e os beedies, que, assim como assado, são do melhor que há entre a Índia e a Islândia, salvaram-me do frio nórdico. Tudo graças aos meus amigos indianos que acreditam em santos, santos com cabeleiras disco e poderes inimagináveis. Por exemplo, santos que transformam pequenos pedaços de madeira em pepitas de ouro, santos que transformam pitas shoarmas em big macs. Ou, usando de uns certos pós, santos que nos fazem ver a verdade. Penso muito nestes santos e concluo que até eu, mesmo na Islândia, consigo chegar à verdade fazendo uso de certos pós. Não podemos, no entanto, ser tão cépticos. (Quem te avisa teu amigo é. Não sejas céptico.) Os santos existem. Entre a Islândia e a Índia há deles a pontapés. Vivem de verdades ocultas que, reveladas, parecem-nos banalidades evidentes. Parecer não é ser. Os santos têm isso a favor deles, merecem o nosso beneplácito. Parecer não é ser. Uma coisa pode parecer uma banalidade evidente, mas não é. Porque parecer não é ser. Tu podes parecer um santo, mas não és. Parecer não é ser. Ser implica algo mais, como, por exemplo, ter ido ao Egipto. Já fui ao Egipto, posso dizer que sou. Nunca ter ido à Islândia ou á Índia faz de mim apenas alguém muito comum, pois a maioria das pessoas no mundo nunca foram à Islândia ou à Índia nem são santas. Mesmo parecendo que são. Sou, portanto, uma pessoa vulgar. Mas sou-o com certas particularidades. Por exemplo, quando estou triste bastam-me beedies e minis. Sento-me defronte à televisão a observar adolescentes controlados e adultos histéricos, homens com idade para ter juízo completamente fora de si e jovens com idade para ter experiências completamente dentro de si. Entre o dentro e o fora de si vai toda uma filosofia DeRose. Sócrates também se explicava a partir de três domínios interligados: o domínio do autoconhecimento, o domínio da autoconsciência e o domínio do autodomínio. São domínios deveras essenciais na vida de um homem que se queira entre a Índia e a Islândia, são domínios que nada têm que ver com a engenharia civil que agora se pratica, uma engenharia de construtores corruptos, sacos azuis, mercados offshore, fugas ao fisco, ficções científicas. Penso nos santos. Quem cobrará impostos aos santos? Já alguma vez terá passado pela vossa cabeça que a nossa infelicidade possa ser o imposto que os santos pagam pelos serviços que nos prestam? Vejamos: oramos aos santos, fazemos promessas, pagamos com todo o tipo de sacrifícios, fartam-se de ganhar com isso, depois têm que declarar rendimentos, estão tão apegados a nós que a nossa infelicidade será o imposto que pagarão pelos rendimentos auferidos. A nossa infelicidade é a infelicidade dos nossos santos protectores. Daí que se aposentem mais cedo do que a maioria de nós. Daí que muito mais cedo do que a maioria de nós possam receber avultadas reformas pela redobrada tristeza com que contribuíram para a segurança social do mundo. Sem os santos, o mundo seria muito menos socialmente seguro. Sem os santos e sem os beedies e sem guerras preventivas. Se o mundo fica entre a Islândia e a Índia, garanto-vos que será entre a Islândia e a Índia que os santos mais consolidarão as suas finanças. Eles são muito nossos amigos, como os animais. Os santos são autênticos animais. Nós é que, por vezes, esquecemo-nos deles. Vamos às touradas, comemos rosbife, vestimos casacos de pele, calçamos botas de cano alto. Oremos. Em nome dos pais, dos filhos e dos espíritos santos.

3 Comments:

At 11:55 da manhã, Blogger JPG said...

Se, de repente, tiver saudades dos beedies, há no C.C. Martim Moniz (Lisboa...).

E naqueles belos maços cónicos (de 30), não aparecem sentenças de morte grafadas em letras garrafais. É só vantagens, portanto.

 
At 12:33 da tarde, Blogger hmbf said...

Agradecido pela dica.

 
At 2:02 da tarde, Blogger ka said...

esta imagem de incenso, beedies, mantras e mini entre as pernas esta' fabulosa :)

(os santos...) estão tão apegados a nós que a nossa infelicidade será o imposto que pagarão pelos rendimentos auferidos.
parece-me uma tributação indirecta... de qualquer forma-santa, a sinergia é uma condição entre o indivíduo e os seus santos.

 

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