5.3.08

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #19

VITÓRIA NEGRA


Ela não sabia que passados 452 anos,
eu estaria aqui a mostrar o alvo pano
que trazia à cabeça sob o chapéu
e sobre este o seu açafate. Reparem
também, neste seu avental de burel
aberto à frente. Para que seria

a abertura? Alguns países africanos
também se abrem por interesses
comerciais com o outro mundo,
moderando a penalização sobre
a homossexualidade. Tanto
neste como no outro, quem tiver
a pena de morte, prisão perpétua,
prisão de alguns anos, multas ou
trabalhos comunitários, se lembre:
estamos em guerra.

Voltemos ao escravo negro
(quando assim o chamavam,
apedrejava, emendando: sou negra
e não negro!) António, natural de Benim
e à sua detenção pela inquisição após
denúncia raivosa e invejosa das putas
da Ribeira de Lisboa. A denúncia
não se deveu à cor da pele mas sim
ao facto de o António ser Vitória
e levar para o silêncio das casas
em ruínas, carregadores de cargas,
mancebos, outros, além dos musculosos
homens das beiras. Prostituta
desenvergonhada, acenava
com pecados apetitosos, lançado
“sou mulher e tenho um buraco na ilha”.

O travesti andou por Ponta Delgada,
desencaminhando adormecidos
vulcões, antes de se apear em Lisboa
e ser presa nos cárceres do santo ofício.
Por causa das chungas do Largo
de São Paulo da altura foi
condenada a degredo perpétuo
como remeiro nas galés del-rei
lá prós lados dos Allgarves. Esta
região sempre foi de entulhos à parte.

Pela descrição dos inquisidores,
a sua majestosa figura de pecado
quase nada teria de Timothy Z. Mosley.
Tirando o talento... talvez as mamas.


Jorge Aguiar Oliveira

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