12.3.08

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #23

UMA CARTA MORTA



Nunca me deste um sonho
nem disseste: o meu cais é o teu.

Nunca soube se valeu a pena
ter despido a honestidade
a teus pés. Poderia ter ficado
a teu lado mentindo um amor
mascarado pela tua
oceânica conta bancária.

Um dia descobririas o M mais
tarde o E, juntarias letra a letra
até descobrires a mentira
das mentiras que contaria
ao chegar atrasado aos brancos
da toalha de mesa e dos lençóis.

Inventaria serões com colegas,
desastres nos transportes
para esconder a sombra
dos meus braços entrançados
a um homem. E eu viveria
mais miserável do que vivo.

A morte roubou-me a bússola.

Nunca soube se um canavial
existe sem melros, piteiras,
teias de aranha, grilos e sombras
secas morrendo ao vento.

Um rapazola encostou a bicicleta
às canas e deitou-se a bater uma
pívia. Limpou o último pingo
com a palma da mão
e esfregou-a numa cana. Só
depois me avistou deitado
à sombra da figueira. Desejou
uma boa-tarde ao passar
e seguiu rolando. Isto passou-se
um mês e tal depois
de nos separarmos
em A-das-Lebres, Ana.

Jorge Aguiar Oliveira

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