2.4.08

A CAGADINHA

A cagadinha, no meu bairro, é quando um tipo dá as cartas no sentido contrário ao movimento dos ponteiros do relógio. No discurso português sobre Portugal há muita cagadinha, há muita gente a dar as cartas no sentido contrário. Não sei explicar por que assim será, não estou na posse de dados que me permitam afirmar, com convicção, ser esse um hábito, um defeito, um feitio, uma tendência, uma inclinação, uma moda, um pretexto para a autovalorização, o que quer que seja. 1001 antónios barretos podem fazer 1001 documentários a demonstrar que muito mudou no país neste últimos anos, que 1001 portugueses continuarão a afirmar exactamente o contrário. Continuarão a optar pela cagadinha do costume: que nada mudou, que os jovens são uns imbecis, que o sistema, ou o regime, ou o caralho que os foda, é que inquinou o progresso, que a juventude está perdida, que os sonhos, as velhas utopias, foram no ralo, que há uma crise de valores (puta de crise de valores, que já nos acompanhas, pelo menos, desde que Camões escreveu os Lusíadas!), que nos estamos a afundar num pântano irremediável, que esta democracia é um espelho embaciado da outra senhora, que geração rasca (lembram-se?), que geração 500, que nhã nhã nhã, papá mamá, xixi cocó. Ora bem, a cagadinha é um método legítimo. Ninguém pode impedir alguém de dar as cartas ao contrário. Podemos, no entanto, interrogarmo-nos sobre as vantagens da cagadinha. Haverá alguma vantagem em passarmos o tempo todo na lamentação, a carpir fantasmas, deplorando o presente, vaiando o futuro, olhando para o passado como um coito interrompido? Julgo que não. É verdade que os tempos não estão de feição, que Portugal está, de facto, transformado numa pocilga onde chafurdam umas dúzias valentes de suínos no mais pornográfico dos faustos à custa de milhares de cidadãos que suam as estopinhas para poderem, no final do mês, dar vazão ao crédito. Também é verdade que, como dizia um certo povo em antena aberta, muita gente não chega a suar as estopinhas e quer viver à custa da sorte e do azar, sendo que, a maior parte das vezes, sai-lhes o azar na rifa. Depois queixam-se. O português é fácil, dizia-me hoje um cliente cá de casa. Alguns serão, outros não. O que sei é que o sol continua a nascer todas as manhãs, a lua, lá do alto, olha cá para baixo com desconfiança, ainda há estrelas no céu e o mar até não tem estado flat. O que mudou, nos últimos anos, não é coisa que se veja, para já, como uma mosca na ponta do nariz. O que mudou é tudo, é a raiz do problema, é a essência, o que mudou foi o mais básico. Querem vocelências crer que nada mudou? Pois bem, morram felizes na vossa pestilenta idade média. Vamo’ lá a ver uma coisa: a tabuada não se tornou obsoleta, mas tornou-se obsoleto perder tempo a aprender a tabuada; a memória não é prescindível, mas é quase um crime cansá-la quando temos à mão de semear megabytes dela; os filhos ainda se fazem com gosto, mas também por inseminação artificial, podem ser encomendados, ilustrados, feitos a medida e feitio; e depois há ainda o aquecimento global, por cima de nossas iluminadas consciências, a ditar-nos o futuro: não vás por aí que te queimas, não vás por aí que te molhas, vai por onde eu digo, não vás por onde eu faço. E nada mudou? O tanas! Mudou tudo, tudo está a mudar, jamais nos banharemos em Heraclito (para os mais novos, um lago imenso no centro de África) da mesma forma, pois hoje temos vários tipos de botijas a alimentarem-nos o pulmão. Até já podemos, soube hoje, ir e vir a Praga por 1 euro. E nada mudou?

2 Comments:

At 3:03 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Henrique,
Esqueceu-se das fraldas descartáveis, da anestesia epidural, dos vibradores e de tantas outras maravilhas tecnológicas.
Escusava de dizer "nomes feios" à conta do seu optimismo escuteiro.
Até se concorda consigo, a um nível superficial. Mas, há quem pense a outros níveis de evolução e está no seu direito, sobretudo de não ser apoucado, pois como dizia o José Gil, "há coisas do domínio do não quantificável".
E a respeito de contas, suponho que as recentes teorias cognitivas sobre a mente humana, concluiram que a memória não se gasta. Quanto mais usada, mais durável e funcional se torna.
Como poderia um pianista tocar de cor extensas sonatas de Beethoven, difíceis "Invenções" de Bäch,etc, se a memória não tivesse a mais inceível das potencialidades?
Essa de não "sobrecarregar" a memória dos infantes foi mais uima descoberta palerma das novas pedagogias.

Ainda recentemente, uma professora de Português, minha conhecida, se queixava de que tinha extrtema dificuldade a dar ao 12.º ano, a "Mensagem" de Pessoa, porque os alunos não faziam puto de ideia, quem eram aqueles Dinises e Afonsos e Sanchos, com os quais,não lhes tinham "sobrecarregado a memória".

Como em tudo,a perspectiva depende da janela onde nos colocamosa, de preferência sem maus cheiros por perto.

Cumps.
Vi.
PS -Não consigo enviar com o meu nick habitual.

 
At 11:49 da manhã, Anonymous Anónimo said...

"- Repara, Tancredo: é preciso que tudo mude para que tudo continue na mesma - disse o príncipe Salinas para o sobrinho com aquele meio-sorriso que encantava ao mesmo tempo que despertava uma certa inquietação naqueles a quem era dirigido".- Tomaso di Lampedusa, "Il Gattopardo".

Alpoim

 

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