1.4.08

DÉJÀ VU

Tentei assistir ao Prós & Contras, mas o cansaço voltou a trair-me. Passei os olhos e os ouvidos pelo debate como cão por vinha vindimada (aguardava há muito uma oportunidade para utilizar esta expressão). Do que vi e ouvi, posso apenas confessar que pouco me cativou, nada me surpreendeu, tudo me pareceu demasiado previsível. Também deu para constatar, mais uma vez, que o professor Gil não se destaca pela eloquência e que a Joana Amaral Dias pensa melhor do que fala (tanta agressividade no estilo faz dela uma séria candidata ao elenco das espécies animais consideradas perigosas). Também se falou muito de uma tal Escola da Ponte e de uma outra, julgo que em Vialonga, considerada difícil por ter alunos muito complicados, inclusive ciganos (sic). Foi mais ou menos assim que o problema se colocou. Esta forma de colocar o problema não é nova. Quando eu andava no secundário, recordo-me bem, Vasco Pulido Valente foi a um programa do Joaquim Letria discutir assuntos similares. Reforma após reforma, os ministros foram compondo a reforma, os professores foram-se reformando, a escola ficou onde sempre tem estado. O que há de verdadeiramente grave hoje não é a indisciplina, muito menos a violência. Grave, e disso praticamente ninguém falou, é a cada vez maior dificuldade que os professores sentem em valorizar a escola perante os seus alunos, porque grave é, apesar de tudo, a escola continuar a ser uma mera oportunidade de emprego para tanta gente que não tem qualquer vocação para a escola, grave é perceber que os alunos olham com cada vez mais desconfiança para a escola, como se, de facto, andassem ali única e exclusivamente para não andarem noutro lugar, grave é a tremenda dificuldade que se sente em justificar a necessidade do ensino, não da transmissão de competências técnicas, mas do ensino como um todo, grave é perceber que imensos alunos conseguem chegar à faculdade sem quaisquer faculdades no domínio da sua língua, grave é verificar que tantos e tantos alunos sentem que a escola não lhes serve para nada, que o conhecimento é inútil, que os irmãos mais velhos, formados nisto e naquilo, estão todos desempregados, que eles para lá caminham, grave é sentir todos os dias essa dificuldade extrema, esgotante, frustrante, desanimadora, de não entender para quê tanto tempo perdido com futilidades quando há tanto que fazer… Eu ontem vi uma Professora no Prós & Contras, Professora com P maiúsculo, e que pena sinto de não me lembrar do nome dela, pois foi a olhar para ela que este post nasceu. Do pouco que aprendi em dez anos de docência, e muito gostaria eu de pôr um termo definitivo a estes dez anos, garanto-vos que a lição mais importante foi esta: estamos a assistir a uma transformação radical do mundo, uma transformação tão radical quanto a aprendizagem de uma nova língua, nada hoje, em termos de relação ensino/aprendizagem, é como dantes, a não ser, talvez, o facto de que só aprende quem se predispõe a ser ensinado e só ensina quem deseja continuar a aprender. Grave é não percebermos isto e julgarmos possível travar essa transformação, tenha ela como agentes de mudança os factores que tiver. Mais que a violência, mais que a indisciplina, no nosso país grave é continuarmos tão avessos à mudança, tão receosos da transformação, como se isso nos valesse de alguma coisa. Grave, no fundo, é continuarmos tão portugueses.

5 Comments:

At 2:45 da tarde, Blogger etanol said...

A professora era aquela senhora de matemática que criticou a eleição dos professores titulares? Eu gostei dela!
Maria João

 
At 4:18 da tarde, Blogger hmbf said...

Hmmmm Acho que não. Sei que era baixa e tinha óculos, chegou atrasada. :)

 
At 4:53 da tarde, Anonymous Anónimo said...

As mudanças não são assim tão grandes...
- a lei do mais forte ainda vigora e perdurará por muitos séculos.
-ainda não se descobriu a imortalidade. Depois da "Lepra" veio a "Peste Negra", veio a "Colera Morbus", depois a "Tuberculose", a "Pneumónica", os "Neoplasias", o "Ébola", o "HIV-Sida".Haverá sempre doenças crónicas, incuráveis, mortais, para muitos milhões.

-a tecnologia evolui rapidamente, mas os humanos são os mesmos. Como dizia a tal resistente professora de Matemática "para que servem os Ferrarris a quem não sabe conduzir?"
A outra sernhora era simpática e pareceu-me socialmente eficaz, mas, para meu gosto, tinha um ar demasiado freirático. E o ensino não deve ser a Conferência de S. Vicente de Paula".

Li no "Mar Salgado", uma amarga mas judiciosa afirmação sobre o assunto "novos tempos":
"os novos sempre bateram nos velhos".

http://vidainvoluntaria.blogspot.com

 
At 4:54 da tarde, Anonymous Carlos Araújo Alves said...

O desejo de aprender!
Belíssimo texto, caro Henrique Fialho.

 
At 2:11 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Santa aldrabice! "O desejo de aprender" o quê? A coçar uns certos locais,,,,
Mas, ser optimista faz bem ao fígado.

http://www.vidainvoluntaria.blogspot.com

 

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