6.4.08

DANTES E AGORA

Ontem estive na Biblioteca de Caldas da Rainha, a convite da Comunidade de Leitores cá do burgo, a comemorar a poesia e a homenagear o Ruy Belo. Pediram-me a vida e a obra do poeta em não mais que 25 minutos, pelo que resolvi oferecer-lhes isto: «Um homem obstinadamente retirado das ribaltas, submetido a uma profissão inadequada, preso ao reduto de um corpo demasiado pesado para a mobilidade da sua mente. / A morte de um poeta torna-se, muitas vezes, um alto momento exemplar. Ela evidencia todas as taras da organização nacional e põe a nu os critérios culturais de um povo. Tudo aquilo que não aconteceu a Ruy Belo mostra os mecanismos da merda em que nos fazem chafurdar» (Joaquim Manuel Magalhães, Os Dois Crepúsculos – Sobre a poesia portuguesa actual e outras crónicas, p. 145, A Regra do Jogo, 1981). Que mais poderia eu dizer? A sala estava composta, a organização foi impecável e houve algumas boas surpresas. Conheci o Jorge Castro, que esteve por lá a ler poemas seus e outros de Ruy Belo com uma voz impecável. E depois comovi-me. Comovi-me a ouvir uns miúdos de uma escola de A-dos-Francos, ensaiados, à hora de almoço, por uma professora de uma escola de A-dos-Francos. Desta feita, não me esqueci do nome da professora. Chama-se Isabel Sá Lopes. De alguma forma, é reconfortante saber que, em A-dos-Francos, há uma professora que se junta com alguns alunos, à hora de almoço, para degustar poesia. Uma das miúdas disse um poema da Fernanda Botelho. E eu comovi-me. Estão a ver? Uma miúda, com não mais de doze anos, disse um poema de Fernanda Botelho. É uma miúda que estuda numa escola em A-dos-Francos e, à hora de almoço, junta-se a uma professora para degustar poesia. Ela sabe, porque o disse, que Fernanda Botelho morreu recentemente. E, como aconteceu com Ruy Belo, a ignorância em que morreu mostra-nos «os mecanismos da merda em que nos fazem chafurdar». Não sei se saberá esta última parte, não sei se a maioria dos presentes terá consciência desta última parte. É que dantes, como diz Joaquim Manuel Magalhães, havia cada vez mais gente revoltada. Agora, há cada vez mais gente ensimesmada.

1 Comments:

At 6:39 da tarde, Blogger Luis Eme said...

Li na "Gazeta" o acontecimento...

é sempre bom habituar as crianças e os jovens a conviverem com a poesia, mesmo que seja à hora do almoço...

Parabéns à professora, aos alunos e aos poetas...

 

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