3.4.08

UMA TRISTEZA ILUMINADA

Como dar um nome a essa tristeza? Impossível nomear os enigmas obscuros da carne, impossível ver para lá dessa obscuridade com que nos atingem a toda a hora, por todo o lado, o corpo, a alma, a demora decadente dos ossos, da pele, dos músculos. Como olhar os cabelos brancos sem ver nessa névoa capilar um indício do fim? Olho os cabelos brancos e vejo apenas tempo perdido, tempo perdido a tentar nomear essa tristeza branca, enigmaticamente obscura, que tinge os teus cabelos brancos. No entanto, olham para mim sorrindo, concentram-se nos meus olhos mortos, afagam-me a barba, desculpam-se, de certa maneira, por estarem tão brancos defronte à minha absoluta ignorância. Dançam no miolo dos ossos brancos pêlos de sabedoria. Dançam e riem, provocando-nos. Por que riem e nos provocam? Porque é deles toda a sabedoria, porque só eles sabem o que talvez um dia a nossa tristeza venha a descobrir: é o sol quem compõe a sombra, é ao sol, irónico poeta, que devemos o fogo, a chuva, o frio, a energia vaporosa dos sorrisos. É a ele que devemos a sombra, sem ele nenhuns ombros descobertos, nenhuma cintura ondulante, nenhuns braços nus, nenhumas pernas esguias iluminariam a tristeza dos nossos dias.

2 Comments:

At 9:46 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Como lo decía Hans Magnus Enzenberger, "El cerebro de un periodista se llena con tres nombres: el de un deportista, la actriz de moda y el político de turno".
Y pelo corto, coño.
Saludos ibericos,

Rafael Cojones

 
At 11:40 da manhã, Blogger ka said...

sorriu,
e revejo-me nos dois lados, depois de deixar a tristeza a repousar:
o lado dos meus precoces cabelos brancos, esses de que tanto me orgulho, marcas do meu percurso, das accoes, historias alegres, historias tristes;
o outro lado, o dos cabelos brancos dos avós, sempre tão recheados de histórias a contar, umas alegres, outras tristes.
fico com a imagem desse afagar da barba. e sorriu.

 

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