3.5.08

AOS MEUS INIMIGOS


Um beijo na boca fechada do tempo, as cinzas crescendo para dentro do corpo, o corpo liquescido para um jarro, servido à mesa como um sangue repartido em taças de prata, como o vinho de Deus, o pão de Cristo, as luzes de Natal a piscarem no céu, um fogo de artifício à extensão das estrelas e as estrelas todas a explodirem, ao mesmo tempo e em sintonia com os acasos da terra, enquanto vulcões irrompem dos sexos, derramando o leite sobre as coxas luzidias, oferecidas, das mulheres amadas. Aos meus inimigos, o trato das ortigas, canteiros de ervas daninhas regadas pelo mijo dos cães, muros grafitados com os dedos dos fugitivos. Os dedos dos fugitivos largam pequenos pedaços de carne à passagem, partem as unhas nas ranhuras, esquecem as unhas no cimento húmido. E a gente, amorosamente entregue nas línguas dos inimigos, faz uma papa do cimento, come as unhas estaladiças, rega com o leite vertido sobre as coxas luzidias das mulheres amadas as unhas estaladiças, apetitosos flocos de neve. Tenho um gato de madeira a recuperar-me o calor, tenho cestos de parras que dão uvas ácidas, tempero os meus inimigos com o vinagre das uvas, amo-os avinagrados, degusto-os, bebo-os de um trago como se fossem chá verde. Electrocardiograma: aponta-se a passagem do ano, celebra-se o aniversário, mas ninguém festeja o segundo seguinte. O segundo seguinte esconde-se num condomínio fechado, reúne-se à porta de uma esquadra abandonada e reclama o direito a ser festejado. O segundo seguinte sente que também tem direito a ser festejado, assim como o segundo seguinte ao segundo seguinte e o segundo seguinte ao segundo seguinte ao segundo seguinte e assim sucessivamente. Todos os segundos reclamam esse direito. Sentem-se discriminados, não entendem que a passagem do ano seja festejada e que o segundo seguinte à passagem do ano seja esquecido como um operário explorado. O segundo seguinte aparece à frente das câmaras, levanta os braços, vai à missa, celebra a sua cerimónia, contacta especialistas com o objectivo de perceber a dinâmica do tempo, a boca fechada do tempo. O caso do minuto seguinte é o caso dos meus inimigos. É preciso fazer uma mesa redonda com os inimigos, construir um muro em torno da mesa, deitar o muro abaixo após uma política de reconstrução, reestruturação das unhas, dos pedaços de carne, deixados no cimento pelos fugitivos. Retroceder o jacto dos vulcões, virmo-nos das coxas luzidias das mulheres oferecidas para dentro das máquinas propulsoras. Vestígios que não ajudam à descoberta da verdade porque, quando se trata de falar dos inimigos, a verdade está toda ela nos vestígios. Os vestígios estão sempre em segredo de justiça, são uma base de dados em falta, um exame pericial pós-coito.

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