29.4.08

DORES DE ESTÔMAGO

Ontem passei muito mal. Comi umas natas estragadas ao almoço. Passei o dia a vomitar e a dejectar. Quando estava a recompor-me, deparei-me com o mais fabuloso espelho da hipocrisia nacional na televisão do Estado: um Ministro do Trabalho e da Segurança Social (SS), os secretários-gerais das centrais sindicais e ainda, como dizia o outro, uma série de gente em representação destes e daqueles e daqueloutros. O meu estômago, que já estava maltratado, pior ficou. Não houve ninguém ali que negasse o evidente: a lei não se cumpre neste país. Mas o desplante é tal que, perante o inegável incumprimento da lei, a resposta, ao melhor estilo Gato Fedorento, foi invariavelmente: é verdade que não cumprimos, mas tudo estamos a fazer para passarmos a cumprir, porque a verdade é que ninguém cumpre, mas nós, apesar de tudo, não cumprimos muito menos do que os outros, por isso cumprimos um pouco mais, isto é, ainda que não cumpramos, quando cumprimos, cumprimos mais que os outros, pelo que tudo faremos para começarmos a cumprir mais ainda. Os recibos verdes são uma das maiores pragas, injustiças e atropelo aos direitos mais básicos dos trabalhadores na actualidade. Sei do que falo, pois há oito anos que trabalho a recibos verdes para a mesma entidade. Oito anos a cumprir horários, a marcar presença em reuniões que não são pagas, a obedecer a hierarquias, planos de trabalho, a elaborar relatórios impostos pela entidade à qual presto os meus serviços, etc. Tudo isto numa instituição da Igreja Católica Apostólica Romana, a mesma que anda sempre deveras preocupada com a situação das famílias portuguesas e dos trabalhadores portugueses. O Estado não cumpre, mente e rouba indiscriminadamente, sem que nada lhe aconteça. Por que razão terão os outros de cumprir? Mas não é só o Estado. Gostaria, por exemplo, que o Dr. Carvalho da Silva me dissesse como é que a CGTP-IN paga aos seus formadores. Estará o Dr. Carvalho da Silva em condições de me garantir que esses formadores se limitam a prestar serviços à CGTP ou serão, também eles, “falsos recibos verdes”? Perante isto, chamar-lhes falsos é, claramente, um eufemismo. Eles são bem verdadeiros. Sinto a verdade dos recibos verdes todos os dias. Sentia menos quando descontava menos para a tal SS, a mesma que nada me garante se, por acaso, eu ficar sem trabalho. A Segurança Social, neste país, é tudo o que não devia ser: uma grande dor de cabeça. Em 2002 descontava todos os meses 88,39 para a SS, em 2002 passei a descontar 90,58, em Março de 2004 aumentou para 92,86, em Fevereiro de 2005 para 95,17, até que, em Outubro de 2005, passei a descontar, todos os meses, 142,76, para, em Fevereiro de 2006, passar a descontar 147,03 e, em Março de 2007, 151,58. Não pago mais por receber mais. Antes pelo contrário, tenho vindo sempre a receber menos. No entanto, segundo os senhores que regem estas coisas, o que recebo ao final do ano não me isenta de pagar a totalidade da contribuição obrigatória. Mas há mais. Desde Setembro passado que, face às despesas, trabalho para uma Empresa de Trabalho Temporário (ETT) em regime de tempo parcial. Acumulo com o chamado trabalho independente. Como a ETT só me paga 2.33 à hora, o que gasta comigo, no final do mês, não a obriga a fazer a totalidade dos descontos para a SS. Se ao fim de um mês eu ganhar 293,56, a ETT desconta 32,29 e eu desconto o resto, ou seja, 119,29. Bom negócio para a ETT, não acham? Feitas as contas, dos 293,56 que eu auferi, apenas 174,27 são, realmente, para mim. Uma fortuna! Talvez dê para as fraldas da Beatriz. É por estas e por outras como estas que o meu estômago se desarranja tanto quando ouve aqueles senhores, quando me obriga a engolir a hipocrisia daquela gente, os tais amigos do seu amigo que, bem podem ficar descansados, terão uma velhice risonha. Penso nisto e só vejo 3 soluções: um forte e consistente movimento pró-economia paralela (ninguém passar recibos a ninguém, nem facturas, nem o caralho até que o Estado resolvesse mudar esta pouca vergonha) tem sempre vantagens e desvantagens; aumentar exponencialmente os scores eleitorais da CDU e do BE (o PP não conta por ser pendura do Bloco Central), a ponto dos partidos de poder se "acagaçarem", parece-me pouco provável; as formas de luta mais radicais, tipo greves, atentados, insurreições, afiguram-se-me interessantes mas, perante o desplante e o conformismo geral, ineficazes. Sendo assim, proponho uma via de abstinência, trabalhar o menos possível, abdicar dos bens materiais, regressar ao campo, aos mosteiros, reocupar terras abandonadas, voltar às cavernas se preciso for. E uma alimentação saudável, de preferência sem natas estragadas.

5 Comments:

At 2:42 da tarde, Blogger etanol said...

porra, os politicos são piores que as natas estragadas!
Maria João

 
At 3:33 da tarde, Blogger hmbf said...

São incomestíveis.

 
At 3:36 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Mau mesmo, é as pessoas conformarem-se!
Terem meios ao dispor, e não actuarem!
Há uma instituição que se chama Tribunal de Trabalho, na qual habita outra que se chama Ministério Público.
E os trabalhadores são sempre bem vindos.
MF

 
At 11:08 da tarde, Blogger Nelson said...

Desde à 6 anos que sigo os teus conselhos do final do texto, materialismo mínimo e qualquer trabalho que faço recebo em dinheiro limpo, lavado das mãos sujas desta economia nojenta.

 
At 12:01 da tarde, Blogger hmbf said...

MF, bem sei que há essa possibilidade e que, apesar das chatices e da morosidade dos processos, por vezes complicados de resolver, dada a pouca clareza de algumas leis e das situações laborais, muitas vezes os trabalhadores acabam por ver a justiça a funcionar. Eu próprio já pensei nessa possibilidade no que respeita a uma situação muito específica. O problema é que a grande maioria das pessoas não só não acredita no funcionamento da justiça (e terão, muitas vezes, razão para tal), vive em situações de tal forma precárias que não têm espaço mental e físico para se lançarem nas águas agitadas da burocracia portuguesa e temem a incerteza que um cenário desses representa. Basicamente, pensarão: o melhor é estar quieto e ter algum trabalho do que armar-me em herói e ficar sem trabalho algum.

Nelson, não são conselhos. São meras alternativas de quem não se importa de pensar alto.

 

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