2.6.08

SOBRE A MICRO-FICÇÃO (texto lido no encontro sobre micro-ficção realizado em Casablanca no dia 23.05.2008)


1. Como já pude dizer numa entrevista a uma revista portuguesa online de micro-ficção (Minguante), o que mais me atrai na micro-ficção é a sua extrema aptidão para a promiscuidade. A micro-ficção não é um género literário, é a riqueza da impossibilidade de o ser. Confunde os géneros e deixa-nos (bem) perdidos no caminho para qualquer definição.

2. O escritor contemporâneo tem atrás de si um passado onde a procura da Verdade naufragou violentamente em guerras, genocídios, preconceitos. As descrições totalizantes do mundo deram entretanto lugar à revalorização transformada da experiência individual e isto tem duas vertentes com fronteiras pouco claras: por um lado, deixámo-nos desmoralizar relativamente a uma acção com propriedades salvadoras; por outro, acabamos dando maior atenção à diversidade de expressões, artísticas e quotidianas, como se cada pequena ou grande obra encerrasse (e encerra) a sua verdade (já sem maiúscula) própria, do tamanho da pessoa que a suporta ou, se formos optimistas, do tamanho da partilha que formos capazes de gerar.

3. Num mundo onde se acelerou o processo de criação de ligações das unidades da Rede – falo da Internet mas falo também da matéria que pensa ou, mais simplesmente, de todos os suportes de desenvolvimento da vida – a forma leve da micro-ficção permite-lhe circular melhor: como se fosse possível estar em vários sítios ao mesmo tempo. A sua plasticidade nómada fá-la experimentar a banda desenhada ou a eficácia do spot publicitário; a poesia, se o ritmo deixar; o aforismo, havendo universo que se deixe comprimir. A micro-ficção é um mutante que vai acumulando formas, interacções, desequilíbrios.

4. E quanto ao tamanho? Quanto mais pequeno melhor, como os telemóveis? Pois, a pergunta é traiçoeira, porque os telemóveis só continuaram a diminuir de tamanho até ao ponto em que sua funcionalidade começou a exigir um écran maior. Mas a questão do tamanho parece-me pertinente, quando situada no contexto antropológico que lhe responde: o espaço parece não ser absolutamente infinito quando todos queremos um lugar, ainda que provisório e inseguro. Podemos fazer uma analogia com os livros: se mais pessoas publicam livros, parece natural que os livros tenham um tempo médio de exposição nas livrarias inferior. Isto tem a ver com um fenómeno de democratização em que tempo e espaço (às vezes é difícil distingui-los) aparecem divididos por um maior número de pessoas. O aparecimento dos blogs enquadra-se neste movimento, e sabemos que os blogs são o grande viveiro actual da micro-ficção (a duração média das visitas na maior parte dos blogs ronda os dois minutos, o que desaconselha a publicação nesses espaços de textos com centenas de páginas.)

Resumindo: a micro-ficção é ADN, e o profundo ADN cabe todo num cabelo. E também: cada um leva apenas um cabelo, incluindo o Rei, o Presidente e o Sábio.

5. Tive o prazer de co-organizar em Portugal a recente “Primeira Antologia de Micro-ficção Portuguesa”. Procurei a qualidade e a diversidade, e a maior parte dos autores participantes tiveram aqui a sua estreia em livro. Descobri-os sobretudo em blogues, ouvindo as sugestões do Henrique Fialho (autor do excelente prefácio) e do Luis Ene, dois dos primeiros entre nós a praticar e a reflectir sobre a micro-ficção.
Dou os parabéns aos organizadores deste encontro pioneiro.

Rui Costa

3 Comments:

At 3:15 da manhã, Blogger Vida Involuntária said...

A popósito da VERDADE (de que se fala no início)

Um certo Mister Jesus (o ungido), coisa que significa "cristo" em aramaico, treinava doze manfios na equipa da Galileia e foi inquirido por um tal Pôncio (Pilatos), poderoso olheiro do Roma:

-O que é a Verdade?

Retorquiu o Ungido:

-Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Quem acreditar em mim, não perecerá...

Pilatos não ficou convencido, lavou as mãos do assunto e não contratou Jesus para o Roma.

O velho e sábio olheiro romano sabia que a Verdade só existe no plural. E que, se a verdade dos pregos é serem batidos na cabeça para se enterrarem na madeira, a verdade desta é não ter saído árvore e não ser esquartejada em tábuas,para um bípede industrioso comer, sentar, pisar, fornicar, nascer, morrer em cima.

I. L.

 
At 3:40 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Errata:
(...) a verdade da madeira era ter ficado árvore(...)

I. L.

 
At 12:49 da manhã, Anonymous Anónimo said...

boa micro-ficção. jesus cristo continua a servir de pretexto para lutarmos pela paz e fodermos pela castidade, tubos digestivos com patas terminados por dentes, nesta realidade que é, diz o Woody (da madeira) Allen, "one vast restaurant".
Rui Costa

 

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