9.7.08

MORITURI


a câmara dos óbitos reúne a amostragem
as lágrimas os sussurros e os odores.
o luto faz contas de cabeça
enquanto as donzelas dedejam os seus amores.
a morte está morta
alheia ao silêncio e ao ruído:
orienta-se pelo ouvido
e só as coroas importunam os vivos.

o morto está morto: a morte só lhe custou
no primeiro momento.
depois habituou-se e tomou-lhe o jeito
e foi pela morte dentro
de peito feito. os viúvos os órfãos os enlutados
bem lhe puxaram pela manga
mas o morto lá ia
mudo aos apelos e aos desvelos
e cansado da cerimónia.
já levava o corpo gasto
como em vida
- mas de diferente maneira.




Nuno Rebocho nasceu em Queluz no ano de 1945. Escritor e jornalista, actividade que o levou a desempenhar funções variadas na imprensa escrita e no jornalismo radiofónico, organizou encontros de poesia e colaborou em inúmeras antologias e colectâneas. Estreou-se em 1965, com Breviário de João Crisóstomo. Seguiram-se outras obras, das quais a mais recente é O Discurso do Método (Canto Escuro, 2008). Também escreveu livros de crónicas.

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