7.7.08

O pensamento nas mãos #5



Sviatoslav Richter a tocar o Estudo Op.25 nº5 de Chopin

Em 1995, assisti a um concerto de Sviatoslav Richter no teatro Garcia de Resende em Évora. Na altura a minha irmã telefonou-me a avisar que vinha um pianista russo (ele é ucraniano) a Portugal e que fazia questão de dar um conserto em Évora; ela não se lembrava do seu nome, mas ia tentar arranjar bilhetes. Fiquei cheia de curiosidade, achei que desejar tocar em Évora tinha o seu quê e o Teatro Garcia de Resende, edificado no séc. XIX, é lindíssimo. Um casal de amigos meus, quando souberam do evento, fizeram-se passar por jornalistas, porque os bilhetes estavam esgotados e não se arrependeram de arriscar, ainda hoje quando nos lembramos, fartamo-nos de rir com o assunto. Nunca me irei esquecer daquele momento: no palco, ao fundo, também havia público sentado em cadeiras e lembro de ver a entrar uma figura imponente que era um misto de Frankenstein com mordomo inglês; ele sentou-se ao piano, apagaram-se as luzes e ficou apenas um pequeno candeeiro a iluminar as partituras. O teatro nunca esteve tão silencioso e Sviatoslav Richter iniciou o concerto com uma sonata de Haydn maravilhosa, o som do piano de certo modo não correspondia à sua fisionomia, ele emanava uma sensibilidade extraordinária. Seguiram-se os Estudos de Chopin e aí senti-me a planar: conhecia os estudos numa interpretação de Pollini, uma gravação histórica dos anos 70, eu gosto muito do Pollini, mas o som que estava a ouvir era totalmente novo, era como se nunca tivesse ouvido os Estudos com atenção. No intervalo, partilhei cigarros com os amigos, estávamos extasiados, lembro-me que alguém comentou que achava que tinha saído de sarau íntimo no séc. XIX, de facto o pequeno teatro às escuras, com Richter iluminado apenas por um pequeno candeeiro e rodeado de uma assistência atenta, até no palco, era de uma intimidade que nunca mais voltei a encontrar em nenhum concerto. Depois, para finalizar, Richter tocou Beethoven. Arranjei posteriormente cds com interpretações suas, mas a tocar os Estudos de Chopin só o reencontrei aqui no Youtube. E descobri também que afinal tinha ouvido Richter a tocar o Concerto nº1 de Tchaikovski durante a minha infância: porque encontrei esse disco no meio dos vinis de música clássica do meu pai. O meu pai tinha o bom hábito de quando chegava a casa, depois do trabalho, ouvir música clássica e lembro-me de quando era miúda de ir ter com ele e de me falar do que estava a ouvir. Hoje em dia, depois da aparelhagem avariar, ele já só ouve Cd no carro, já fiz umas viagens ao som de óperas indescritíveis, porque com a idade ele cada vez ouve música mais alto. Quando lhe contei que aquele “russo” que vi no Teatro Garcia afinal era o que estava no seu vinil, para meu espanto, ele sabia tudo sobre o pianista.

Maria João

3 Comments:

At 11:22 da tarde, Blogger Fernando Vasconcelos said...

Ora bem isso é o que se chama uma verdadeira bênção.

 
At 12:08 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Cara Maria João,

mais outra magnífica escolha. Ele diz no início do vídeo "e-moll" (é a voz do Richter), que significa em alemão, mi menor, a tonalidade desta peça.
Por acaso só estão aqui as partes iniciais e finais do Estudo (não é a versão integral). Existe uma parte central muito lírica e cantabile que é uma das mais conhecidas de Chopin, muito difícil de tocar, e que alterna entre as mãos direita e esquerda, mas sem que o auditor perceba essa distribuição espacial entre as tais teclas brancas e pretas...isto é que é difícil.
O pormenor do candieiro é muito do seu agrado: Richter nos seus últimos anos de vida procurava tocar em salas com 300 lugares no máximo. Nós ainda o ouvimos no Coliseu do Porto (que tem 3000 lugares), com pouca luz, mas duvido que ele tivesse gostado de tocar este que foi um dos seus últimos concertos, poucos dias antes desse célebre, para uns poucos de privilegiados como tu, na cidade branca de Évora.

SL

 
At 12:58 da manhã, Blogger etanol said...

Fernando: obrigada pelo comentário, de facto ouvir boa música é uma benção.

SL: obrigada mais uma vez pelos teus comentários. Devo o previlégio de assistir àquele conserto à minha irmã, que nem conseguia dizer o nome do "russo".
:)
Maria João

 

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