6.7.08

Perguntar ofende? #8

Antes de mais nada, muito obrigada pelos comentários ao anterior post, onde lancei duas questões delicadas e controversas. Vou tentar responder ao caso 11 de Setembro proposto como a maior obra de arte de todos os tempos, começando pela primeira questão: podemos considerar o 11 de Setembro uma obra de arte? Nesta questão está inerente a natureza da própria arte. Como sabemos, a arte foi variando consoante as épocas históricas, civilizações e sociedades; e as teorias de arte ao longo dos tempos tentaram sempre formular as propriedades que a definem, conseguindo apenas dar-nos pontos de vista do que poderá ser a arte; ou seja, cada vez que se pretendeu abranger características definidoras a todas as obras de arte, foram colocados sempre de parte aspectos ao focarem-se outros, que surgem como os mais importantes. Em 1956, o filósofo analítico Morris Weitz chegou a esta conclusão, num pequeno ensaio intitulado “The role of theory in aesthetics” (in J. Margolis org, “Philosophy looks at the arts: comtemporary readings in aesthetics”, Temple University Press, Philadelphia 1978, p-143-154), alertando-nos que o problema está na natureza do próprio conceito de arte. Visto que não existe uma resposta para a pergunta “o que é a arte?”, mas sim várias respostas que são sempre perspectivas diferentes do mesmo fenómeno, a questão que ele nos colocou foi que tipo de conceito é a arte, que me parece pertinente ter em conta antes de tentar encontrar resposta para o caso 11 de Setembro. Assim, Morriz Weitz estava a levantar o problema do emprego real do conceito, incluindo uma descrição das condições em que é usado correctamente ou os seus correlativos. Para tal baseou-se nas descrições lógico-filosóficas de Ludwig Wittgenstein, fazendo um paralelo com a problemática que ele colocou em relação ao conceito de jogo: nós sabemos o que é um jogo, não através de uma definição real ou teórica, mas porque reconhecemos e conseguimos explicar diversos jogos, e ainda decidir entre exemplos novos ou imaginários quais serão ou não jogos. Segundo Weitz, quando olhamos para o que chamamos arte, passa-se algo semelhante, porque não encontramos propriedades comuns a todas as obras, apenas nexos de similaridades, é assim que somos capaz de a reconhecer, descrever e explicar. Isso acontece porque o conceito de arte é aberto, as condições da sua aplicação são emendáveis e corrigíveis, ao contrário dos conceitos fechados, onde se podem fixar condições necessárias e suficientes nas suas aplicações; de facto, estão sempre a surgir novas formas de arte e movimentos que possibilitam alargar o próprio conceito, podem-se imaginar, alcançar casos ou situações que requerem decisões para alargar o uso de um conceito novo, que permitirão lidar com um novo caso e a nova propriedade. Assim, quem reconhece, descreve e explica as obras de arte alarga, estabelece as condições de similaridade, mas não pode estabelecer as condições necessárias e suficientes da aplicação do conceito de arte, porque assim o está a fechar. Morriz Weitz alertou-nos ainda para a confusão frequente do uso do conceito de arte em termos descritivos - como “cadeira” - e em termos avaliativos – como “bom”: afirmar por exemplo, que “o 11 de Setembro é uma obra arte”, não é o mesmo que afirmar que “11 de Setembro é boa obra arte”, porque no segundo caso estamos a utilizar em termos avaliativos, onde poderemos aplicar as várias teorias de arte como critérios de avaliação. Se afirmar que o “11 de Setembro não é uma obra arte” estarei a fechar o conceito de arte e não é o mesmo que afirmar que “o 11 de Setembro é má obra de arte”, que é um juízo de valor. Assim, tendo como ponto de partida as reflexões deste autor sobre o conceito de arte, eu posso afirmar que “o 11 de Setembro é uma obra de arte”, independentemente, de achar que é boa ou má. Mas será que é mesmo assim? Não poderei ver apenas arte no 11 de Setembro, mas sem o acontecimento ser uma obra de arte? Será que qualquer coisa a partir do momento em que alguém afirma que é uma obra de arte passa a ser?

Maria João

2 Comments:

At 7:12 da tarde, Blogger Art&Tal said...

louvo-te o esforço

acho que fazes bem.

estretanto:
"relativismo axiologico e arte contemporanea. de marcel duchamp a arthur c. danto".

eu la vou lendo para ver se gosto.



ps: adoro trabalhos domesticos mas
ha uma coisa que eu nunca mais faço: canalizaçao.

fica-me sempre um pingo em qualquer lado:)

 
At 8:13 da tarde, Blogger etanol said...

Obrigada César, eu cá gosto mesmo é de cozinhar, acho que a culinária é arte maior e estou a pensar fazer o mesmo que o Rossini, largar tudo, até a música e dedicar-me apenas às culinária.

:)
Maria João

 

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