16.7.08

O pensamento nas mãos #11


Horowitz a tocar a balada nº1 de Chopin.

Maria João

8 Comments:

At 2:22 da tarde, Blogger hmbf said...

Com a mão no pensamento, para a Maria João:

«Conta-se que Laso de Hermione e os discípulos de Hipaso de Metaponto, este último da seita de Pitágoras, observaram em vasos a rapidez e lentidão dos movimentos com cujo auxílio as consonâncias se calculam em números. Tomando vários vasos da mesma capacidade, deixaram um vazio e encheram outro até meio com um líquido; percutiram em seguida cada um deles e obtiveram a consonância da oitava. Estes estudos das relações de consonância eram de capital importância não apenas para a construção de instrumentos de corda ou sopro mas ainda para a construção dos teatros, atentos os problemas de acústica que a seu respeito se levantavam. Esta harmonia musical preside a toda uma concepção do mundo.»
Jean Brun, Os Pré-Socráticos, trad. Armindo Rodrigues, Edições 70, Lisboa

 
At 1:33 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Com o ouvido extasiante da Sofia pós- audição do Horowitz, para a Maria João e para o Henrique:

"Quase sessenta mazurkas (...); uma "berceuse", uma barcarola, uma fantasia, uma tarantela, etc., (...)uma tubercolose mortal; um talento de concertista, muitos sucessos mundanos; uma paixão infeliz; uma ligação célebre com mulher ilustre(...); e apenas trinta e nove anos de vida. Outros viveram menos, escreveram mais, comeram mais amargo o classicamente amargo pão do exílio, foram ignorados ou combatidos, morreram abandonados(...).
Além disso, quase todos escaparam mais à possibilidade repelente de ser melodia das virgens, ritmo dos castrados,
requebro de meia-tijela, nostalgia dos analfabetos e outras coisas medíocres e mesquinhas da vulgaridade, como ele não.
Ou de ser prato de resistência para os concertistas que tocam para as pessoas que julgam que gostam de música mas não gostam.
Ainda por cima era um arrivista, um pedante convencido da aristocracia que não tinha, um reaccionário ansiando por revoluções que libertassem as oligarquias da Polónia, coitadinhas, e outras.
E, para cúmulo, a gente começa a desconfiar de que não era sequer um romântico, pelo menos da maneira que ele fingiu ser e deixou entender que era.
Uma arte de compor a música como quem escreve um poema, a força que se disfarça em languidez, um ar de inspiração ocultando a estrutura,
uma melancolia harmónica por sobre a ironia melódica (ou o contrário), a magia dos ritmos usada para esconder o pensamento - e escondê-lo tanto, que ainda passa por burro de génio este homem que tinha o pensamento nos dedos, e cuja audácia usava a máscara do sentimento ou das formas livres para criar-se a si mesmo.
Tão hábil na sua cozinha, que pode servir-se morno, às horas da saudade e da amargura,
quente, nas grandes ocasiões da vida triunfal,
e frio, quando só a música dirá o desespero vácuo
de ser-se piano e nada mais no mundo."

Jorge de Sena, CHOPIN:UM INVENTÁRIO, Ed. 70, Lisboa

 
At 12:59 da tarde, Blogger etanol said...

Henrique: com a mão no pensamento, belo livro esse :)

anónimo: não conhecia o texto de Jorge de Sena,muito obrigada, é brutal, descreve bem o "burro génio" Chopin, que é todo ele piano. Os "grandes génios" como Wagner assustam-me, composições sublimes para a eternidade, tudo em grande,posso até compreender e admirar, mas tenho mais afinidade e empatia com obras de dimensão mais humana, como Chopin, onde uma pequena sonata ou balada me deixa sem fala, onde tudo aparenta uma simplicidade que não existe, simples comparado com 4h de òpera de Wagner, música "simples" mas nunca simplória, sobertudo quando bem intrepretada, Chopin é o poeta do piano.

Maria João

 
At 6:25 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Olá Maria João,

obrigada pelo comentário, pois o anónimo sou eu. Realmente não está muito claro...
Abraço,
Sofia

P.S. e já agora, reparei na gralha de "tuberculose"

 
At 9:37 da tarde, Blogger etanol said...

Olá Sofia,

Afinal eras tu, a tuberculose era a maior gralha até a invenção do antibiótico :)

abraço
Maria João

 
At 9:16 da tarde, Anonymous Anónimo said...

"a força que se disfarça em languidez", "uma arte de compor disfarçando a estrutura", etc.

Vê-se bem que a autora dos posts (iniciativa louvável) não percebeu nada do poema de Jorge de Sena. Se "brutal" é um elogio, o adjectivo é pelo menos, infeliz. Sena também é genial. E é um dos autores de culto dos portugueses que conhecem a nossa literastura. No poema, ele lamenta que um génio tão grande como Chopin tivesse sido relegado para a "nostalgia dos analfabetos".

Chopin também foi considerado, há umas décadas, um compositor algo efeminado. Ora, esta interpretação do enorme Vladimir, tem tudo: fogosidade, energia, vitalidade, mas também um requintado lirismo.

Uma "Balada" que ao fim ao cabo transgride o género e a estética.

 
At 10:20 da tarde, Blogger etanol said...

olá anónimo,

obrigada pelo teu comentário genial!
:)
Maria João

 
At 10:34 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Não tens de quê. Custa-me sempre ver os nossos grandes poetas treslidos. Neste caso,ainda mais o Chopin, também treslido, via Sena.

Melómano

 

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