9.7.08

O pensamento nas mãos #7

Para o manuel a. domingos

Glenn Gould a tocar a Arte da Fuga de Bach

“Glenn Gould disse que se tivesse de passar o resto dos seus dias numa ilha deserta, condenado a tocar e a ouvir um só compositor, ele escolhia Bach. Porquê? Por duas razões: ‘o seu brilho de escrita e de interpretação deslumbrante, e essa qualidade que eu não posso definir de outro modo que por essa grande palavra um pouco vaga: a humanidade.’ Para quem escrevia Bach? Certamente não para um público. As nossas modernas noções de arte ou de cultura eram-lhe estranhas. Ele não escreveu para nos divertir ou nos emocionar. Ele escreveu para Deus e para os seus alunos. Para lhes formar as mãos e remeter a sua alma de músico entre as suas. Foi assim a dedicatória do seu Orgelbüchlein: ‘Ao único Deus supremo, para o honrar. Ao próximo, para fazer a sua educação’. A música para ele raramente é um dizer. É mais um fazer, um artesanato da forma e da matéria. Um fazer que não desdenha o saber-fazer e mesmo um fazer-saber.”

In Michel Schneider, Musique de Nuit, Ed. Odile Jacob, Paris 2001, p-152

Maria João

5 Comments:

At 11:36 da tarde, Blogger bruno said...

finalmente o glenn.
(boas escolhas)

 
At 12:31 da manhã, Blogger etanol said...

Glenn e Bach :)
Maria João

 
At 1:43 da manhã, Blogger Fernando Vasconcelos said...

Bach é sabido escrevia (compunha) essencialmente para Deus, para se sentir próximo de Deus, para honrar Deus. Daí a sua sede de perfeição absoluta no que escrevia, no balanceamento perfeito. Aliás a "moderna" concepção de música em que se procuram exprimir sentimentos do artista começa bem mais tarde com Beethoven e depois com o romantismo. Bach como diz é outra coisa.

 
At 1:47 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Li algures que quando J. S. Bach concorreu ao lugar de Kantor (Maestro) da Catedral de Leipzig, ficou em segundo lugar. Muito me surpreendeu, pois para mim J. S. Bach nunca ficou em segundo lugar em nada, muito menos em música. Mas de facto, o primeiro lugar foi para o seu contemporâneo
G. Telemann (1681-1750), compositor aristocrata também de qualidade e muito conhecido na altura, que acaba por aceitar o ordenado que lhe pagam na paróquia de Hamburgo, que era muito mais alto do que aquele que o Bispo de Leipzig oferecia (uma espécie de oferta mais alta do Chelsea para contratar o José Mourinho- mal comparado, claro, nos valores e nos privilégios).
Os cidadãos evangélicos de Leipzig tiveram portanto de se contentar com a 2ª escolha...

Bach escrevia Missas para estes devotos todas as semanas, Oratórias, Cantatas, etc, etc. Nos intervalos teve 20 filhos com a sua 2ª mulher, Anna Magadalena. Bach escreveu para a mulher e para estes muitos filhos o Notenbüchlein de Anna Magdalena Bach, (Pequeno Livro de Anna M. Bach), pelo qual começamos todos a aprender piano e sobre o qual poetas também escrevem poemas...

Sofia L.

P.S. Gostei muito do video.

 
At 2:27 da manhã, Blogger etanol said...

Fernando: eu não disse nada, traduzi do francês essa passagem de um livro de Michel Schneider, sobre Gould e Bach, de um capitulo intitulado "A mão pensa".

Sofia: sortudos os cidadãos evangélicos de Leipzig e vinte filhos mais a música que jorrou, o Gould bem diz que humanidade é o caracteriza a sua obra!
:)
Maria João

 

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