5.11.08

LIDOS OU RELIDOS EM 2008 (7)

“Conversas com Manoel de Oliveira”, Antoine de Baecque, Jacques Parsi, Campo das Letras (1999)


Como bem disse o Rui Reininho um dia, “seguidamente segue-se” uma catrefada de pontos de vista do realizador que seleccionei segundo a importância de alguns temas e formas mais importantes do seu cinema, culminando numa nota pessoal de incitamento à exigência arrebatada de um soninho reparador.

1. A importância dos rituais.

“São os rituais que fazem a vida. (...) Recordo-me de um filme japonês em que toda a família se reúne. Fala-se primeiro de coisas transcendentes: fala-se da vida, da guerra, sustentam-se questões filosóficas, depois fala-se do que se passa no país. Por fim, o mais idoso diz: “Bom, vamos falar de coisas mais importantes”. Começam então a falar da família, da saúde; preocupam-se em saber se se dorme bem, se se come bem...” (pp. 41-42)

2. O visível e o invisível:

“O fantástico é a sombra da realidade.” (p 58)

Respondendo sobre “necessidade de mostrar o corpo, mesmo quando ele é tabu” (frase dos entrevistadores): “Faço um filme como se cometesse um crime.” (p 60)

“Como chegar ao espiritual senão pelos sentidos?” (p 64)

“Sim, [a casa] é uma maneira de fixar o espírito. Temos a sensação que isso ficará para sempre. Mesmo os filmes desaparecem. Tudo desaparece. Esta ideia é terrível. Tudo vai acabar. Mesmo o mundo.” (p 65)

“Para mim (...) o que é poético (...) é o que sai da merda. É o caso da Virgem, quando Claudel diz que ela era menstruada.” (p 177)

3. O teatro, a palavra:

“Gosto de palavras, mesmo quando são triviais, sob a condição de alcançarem um sentido nobre e novo, é o caso de Rossellini, por vezes. (...) Quando falo de teatro, é no sentido da representação da cena. Tudo o que não é a vida é teatro, mesmo um quadro. O teatro é a síntese de todas as artes. O cinema recebeu esta herança e, pelas suas possibilidades, enriqueceu-a. O sentido que dou a teatro no cinema é o de representação da vida. Graças ao cinema, tudo pode ser representado.

(...) Há uma concepção extremamente constrangedora e redutora do cinema que consiste em pensar que é necessário panorâmicas ou avançar e recuar a câmara e que a palavra é domínio do teatro. Não, o cinema é tudo. A palavra é um elemento precioso do cinema porque é um elemento privilegiado do homem.” (p 70)

“A palavra não deve ser uma ajuda à imagem. É preciso que seja autónoma, como a imagem e a música.” (p 72)

“A origem do cinema é o movimento. Ora nem o som nem a palavra podem existir sem o movimento. O cinema tem toda a legitimidade para registar uma palavra, um som, um texto, tanto como uma paisagem ou um rosto.” (p 84)

“Não é necessário introduzir tudo na acção. O cinema oferece uma imensa possibilidade de jogar com a palavra, só ou com imagem, pouco importa.
“ (p 87)


4. Os planos

“O rigor não significa mais ou menos planos, mas nem mais, nem menos do que o necessário” (p 160)



5. O público

“O espectador deve ser activo (...) Parte-se do princípio de que o público é estúpido, bloqueando-lhe as suas qualidades de análise e inteligência (...) É necessário, pelo contrário, fazer uso das qualidades do espectador. Mas ele está viciado. Isto cria um mau público.” (p 127)



Está a decorrer um ciclo de cinema do Manoel de Oliveira, na Fundação Serralves. Em média estarão 30 pessoas na sala. Isto acontece devido à falta de auto-estradas no Porto. É, é difícil viver numa cidade com tamanha falta de auto-estradas.



Rui Costa

5 Comments:

At 9:32 da tarde, Blogger Ente lectual said...

eu bem que tentei ver o henrique fialho a apresentar o seu livro, tinha a impressão que era hoje as 7:55 mas a essa hora na rptN discutia-se a nova estrada da beira interior. Imaginei que não fosse o que eu queria.

 
At 9:36 da tarde, Anonymous Ele(mentar) said...

Eu não sei que não vi, mas parece que foi só às 12:55. Dizem-me que depois de protestos vários contra a exibição de imagens chocantes numa televisão de respeito, resolveu a direcção da RTP N não repetir o programa onde esse franchinote apareceu.

 
At 3:22 da manhã, Anonymous Anónimo said...

estradas?
eu só se for aquela linha recta para o paraíso.
até mais,
Rui Costa

 
At 12:56 da tarde, Blogger pedroludgero said...

Esta ideia do Oliveira de que nada se deve impedir no cinema, nem mesmo a palavra (o que de certo incomodará os puristas), foi daquelas que conseguiu de facto mudar as minhas perspectivas sobre essa arte.

Abraço

 
At 11:37 da tarde, Anonymous Anónimo said...

pedro ludgero:
foi bem vendida a ideia de uma imagem valer por mil palavras,e já sabemos como a imagem foi imposta pelo discurso dominante como substituta da realidade (da palavra).
Rui Costa

 

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