2.11.08

APRENDER A CONTAR #37

Quarta Leitura
O TERRENO DAS URTIGAS

Num dos dias sem sol daquele Inverno, uma manhã de sábado, um grande bando de automóveis e motocicletas cercou o pequeno bairro do Leftéris com as suas janelas de lata esburacadas e os regos dos esgotos na rua. E soltando berros selvagens deles desceram homens de caras fundidas no chumbo e cabelos tesos como palha. Ordenaram que os homens se reunissem todos no terreno das urtigas. E estavam armados dos pés à cabeça com as bocas das espingardas viradas para baixo para o rebanho. E um grande medo tomou a rapaziada, pois acontecia que quase todos traziam algum segredo no bolso ou na alma. Mas não havia outro remédio e fazendo das tripas coração foram formando fila e os homens de chumbo na cara, a palha no cabelo e as gordas botas negras desenrolaram à volta deles o arame farpado. E cortaram as nuvens em duas, de forma que começou a cair a neve fundente, e até as mandíbulas com dificuldade seguravam os dentes no lugar, com medo que fugissem ou se partissem.
Então, do outro lado surgiu marchando lentamente O do Rosto Apagado, que ergueu o dedo fazendo estremecer as horas no relógio dos anjos. E quando calhava de se deter diante de alguém, este era agarrado pelos cabelos pelos outros, que o atiravam ao chão e o espezinhavam. Até que a certa altura parou diante do Leftéris. Este, porém, não estremeceu. Limitou-se a erguer lentamente o olhar e fixou-o tão longe ― tão longe no seu futuro ― que o outro sentiu o choque e recuou, em riscos de cair. E, louco de raiva, ergueu um pouco o pano negro do capuz e cuspiu-lhe na cara. Mas nem desta vez o Leftéris estremeceu.
Naquele mesmo momento, o Grande Estrangeiro, o que seguia atrás com os três galões no ombro, enfiando as mãos na cinta, desatou a rir: «Olhem», disse, «olhem só os homens que querem, pelos vistos, mudar a face do mundo!» E, sem saber que dizia a verdade, o miserável, chegou-lhe três vezes a chibata ao rosto. O Leftéris, porém, pela terceira vez não estremeceu. Então, cego pelo pouco efeito que tinha a força na sua mão, o outro, não sabendo o que fazer, sacou do revólver e fê-lo detonar junto à orelha direita.
E muito temeram os rapazes, e os homens de chumbo na cara e palha no cabelo e gordas botas negras ficaram de cera. E depois começaram a ir e a vir em torno das casas de terra, e em muitos sítios o cartão alcatroado caiu e surgiram ao longe, por detrás do sol, as mulheres ajoelhadas a chorar, sobre um terreno ermo, cheio de urtigas e negros coágulos de sangue. Enquanto batiam exactamente as doze no grande relógio dos anjos.

Odysséas Elytis (1911- 1995), Louvada Seja, trad. Manuel Resende, Assírio & Alvim, pp. 63-64, Março de 2004.

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