30.10.08

CATÃO

A pátria é triste. Sofro. Estou calmo.
Único honesto, entre desonestos, clarividente,
entre os cegos, a indignação há muito acalmo.
Estou só. Sofro quando ninguém sente.
A honestidade ― que solidão! A coragem cansa.
Em breve, cadáver que a outros mortos fala,
penso em Atenas, plena de alegria mansa,
e no coração afogo palavras que o pudor cala.
Estou cansado de prever o negro acontecer.
Algo nasce. Algo morre. Com quem perde, estou.
Honestidade é pátria de quem outra não sabe ter.
Ao abismo das causas perdidas, quieto, vou.
Melhor do que ocupar-me da minha pobre vida,
agora que os pássaros a cantar começam,
na espada pego, com mão há pouco ferida
― o ventre rasgo. Percebo que meus pés tropeçam.


Lourenço Marques, 7.2.75


Eugénio Lisboa nasceu em Lourenço Marques, em 1930. Licenciou-se em 1953 em Engenharia Electrotécnica, pelo Instituto Superior Técnico. Ensaísta e crítico literário, leccionou Literatura Portuguesa na Universidade de Maputo (Moçambique), na Universidade de Estocolmo (Suécia) e na UNISA (África do Sul). Foi Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Londres e docente do King´s College. Co-dirigiu com Rui Knopfli cadernos literários de jornais tais como A Tribuna e A Voz de Moçambique. O poema aqui apresentado foi respigado no livro Matéria Intensa (Instituto Camões, 1999).

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