5.12.08

Ode do homem de rua

trazia uma pulseira branca de plástico
a imitar uma promessa
de asilo azul
ou um número gasto
um poema a emagrecer.

dormia à entrada de uma porta estranha
de sono ébrio coração esquecido
ou barba por fazer e a vida a dar horas.

só o medo não me fez tocar na mão
a segurar um abandono de fio de prata
e contar-lhe as feridas com os beijos possíveis.
(um coração esquecido de si é fácil de esquecer),
mas quando a rua grita e aflige com a náusea
das flores que nunca cobrirão os sete palmos de terra
é impossível anoitecer como homem igual.

e lembrar-me que o corpo é todo o mesmo
e triste assim.

a polícia veio
pôs uma sirene no lugar do estranho.
a porta fechada
nas frestas nenhuma respiração
quis sentir o perfume doído.

lembrar-me que o corpo é todo o mesmo
e triste assim
quando não há o que vestir
e não se tem mais dentes para amar ninguém
nem fome de casas.




Ana Salomé nasceu em Lisboa a 29 de Setembro de 1982. Licenciada em Estudos Portugueses, dá aulas de Português para Estrangeiros na Universidade do Minho. Prepara uma tese sobre a poesia de Al Berto. Publicou Anáfora (2006) e Odes (2008). Vive em Braga.

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