30.11.08

APRENDER A CONTAR #52


O conto de hoje é excepcionalmente dedicado ao Pedro Amaral. Fica também a capa do livro de onde foi copiado, um exemplar que o Rui Almeida me ofereceu à porta da Fábrica Braço de Prata.


O MEU SONHO DA NOITE DE SÁBADO PARA DOMINGO ANTES DO S. JOÃO DO ANO DE 1791


Havia muito que eu estava metido dentro de uma confusa casa de sucatas, mas sem o perceber, apesar de ter visto um cão a correr em cima de um telhado e a dar um pulo de uma trave reforçada com ardósia para outra.
Entro numa sala; encontro uma jovem sozinha; interiormente, é-me dado saber que se trata de uma parenta do conde de Dompierre; parece reconhecer-me e saúda-me. Dou logo conta de que está com vertigens; parece dizer coisas ternas a um objecto que tem na frente; vejo que está a ter uma visão de um espírito e imediatamente, fazendo o sinal da cruz na fronte da donzela, ordeno ao espírito que se mostre. Vejo então uma figura de catorze a quinze anos de idade, que, sem ser feia, mostra no fato, nas feições e nos gestos, algum descaramento: amarro-a, apesar dos protestos que, em alta grita, exprime. Aparece outra mulher ainda mais obcecada; executo com ela idêntica operação. Os dois espíritos despem-se então das boas aparências e, enfrentando-me, mostram-se insolentes, ao mesmo tempo que, de uma porta que se abre, entra uma espécie de homem baixinho e gordo, com aspecto de carcereiro: tira do bolso dois pares de algemas, as quais vão, por si mesmas, apertar os pulsos dos meus dois cativos. Entrego-os aos poderes de Jesus Cristo. Não sei qual o motivo por que saí desta sala e dei entrada noutra, mas o facto é que é ali que vou fazer o interrogatório aos meus prisioneiros; estão sentados num banco, dentro de uma espécie de alcova; levantam-se ao verem-me chegar e são agarrados por seis personagens que envergam o uniforme de archeiros. Saio atrás deles; a meu lado segue uma espécie de capelão. «Vou ― dizia ele ― ter com o senhor marquês Fulano; é boa pessoa; nos meus tempos livres vou sempre visitá-lo.»
Pareceu-me que estava resolvido a segui-lo, mas vi que levava os sapatos completamente escangalhados; quis parar e apoiar os pés algures, para dar um arranjo aos tacões, quando sou atacado por um grandalhão, em meio de um pátio cheio de gente: agarrei-lhe na cabeça e amarrei-o em nome da Santíssima Trindade e de Jesus Cristo a cujo auxílio o recomendei.
― De Jesus Cristo? ― bradou a multidão que me rodeava.
― Sim ― disse eu ―, e a vós também, depois de vos prender da mesma guisa.
Chega uma carruagem; um homem que vem na portinhola chama-me pelo nome: «Então, mas o senhor Cazotte anda a falar de Jesus Cristo? Então a gente há-de ficar sob os poderes de Jesus Cristo?» Tomei então a palavra e falei detidamente de Jesus Cristo e da sua misericórdia para com os pecadores. «Que ventura a vossa! ― acrescentei. ― Ides mudar de cadeias!» «De cadeias? ― disse um homem de dentro da carruagem para cima da qual eu tinha subido. ― Será que nem um momento vamos ter descanso?»
― Ide ― disse alguém ― tendes sorte em mudar de patrão e que patrão!
O que falara em primeiro lugar dizia: «Eu tinha mais ou menos ideia semelhante.»
Virei as costas à carruagem e seguia pelo pátio fora, o qual era prodigiosamente extenso; a única luz existente era a das estrelas. Observei o céu; mostrava-se azulíssimo e muito velado; enquanto eu o comparava a outros céus que vira no meio de tanto ferro velho, começou uma tempestade a nublá-lo de todo; um terrível trovão o fez incendiar; um raio, que caíra cem passos à minha frente, veio rebolando ao meu encontro; dele saiu um espírito em forma de pássaro com o tamanho de um galo branco e de corpo mais comprido, pernas mais baixas e bico menos pontiagudo.
Corri para o pássaro, persignando-me; e, sentindo-me possuído de uma força mais extraordinária, ele veio cair aos meus pés; quis calcar-lhe a cabeça... Um homem da estatura do barão de Loi, apesar de toda a sua formosura e mocidade, vestindo cor de cinza e prata, fez-me frente e disse para não o esmagar aos pés. Tirou do bolso umas tesouras metidas num estojo guarnecido de diamantes, dando-me a entender que devia utilizá-las para degolar o bicho. Ia pegar nas tesouras quando fui despertado pelo canto da multidão que se encontrava na loja: era canto chão, sem acordes, e as palavras, não rimadas, vinham a ser: «Cantemos a nossa venturosa libertação.»
Assim que despertei, comecei a rezar; mas, desconfiando muito deste sonho, como de tantos outros através dos quais Satanás parece querer encher-me de soberbia, continuei a rezar a Deus, por intercessão da Santíssima Virgem, sem desfalecimento para dele obter a graça de conhecer a sua vontade a meu respeito, ligando, entretanto, cá na terra tudo quanto me pareça de ligar, para maior glória de Deus e conforme as necessidades das criaturas.

Jacques Cazotte (1719–1792), in A História do Diabo Enamorado de Cazotte, seguida de O Recibo do Diabo de Musset e O Diabo Engarrafado de Stevenson, org. Manuel João Gomes, trad. Luiza Neto Jorge, Arcádia, Outubro de 1977.

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