31.10.05

Abro a minha boca * e o mar se regozija
E leva as minhas palavras * a suas escuras grutas
E às suas focas pequenas * as murmura
Nas noites em que choram * os tormentos do homem.

Abro as minhas veias * e enrubram-se os meus sonhos
Transformam-se em arcos * para os bairros dos meninos
E em lençóis para as rapari * gas que velam
Para ouvir às ocultas * os prodígios do amor.

Aturde-me a madressilva * e desço ao meu jardim
E enterro os cadáveres * dos meus mortos secretos
E às estrelas traídas * que eram suas
Corto o cordão dourado * pra caírem no abismo

O ferro enferruja * e eu castigo o seu século
Eu que já experimentei * a dor de mil pontas
Com violetas e narci * sos a nova
Faca vou preparar * que convém aos Heróis.

Desnudo o meu peito * e os ventos se desatam
E vão varrer as ruínas * e as almas destruídas
Das espessas nuvens lim * pam a terra
Pra que surjam à luz * os Prados encantados.


Tradução de Manuel Resende.

Elytis

Odysséas Elytis (pseudónimo de Odysseas Alepoudelis) nasceu na ilha de Creta no dia 2 de Novembro de 1911. Pouco tempo após o seu nascimento, a sua família mudou-se para Atenas onde o poeta fez os estudos secundários. A sua primeira aparição poética foi na revista Nova Cultura, em 1935, introduzindo aí um novo estilo que contribuiu para a reforma da poesia grega. A sua primeira obra, Orientações, foi publicada em 1940. A experiência da II Grande Guerra foi especialmente marcante, verificando-se sobretudo em Áxion Estí (Louvada Seja). Elytis publicou várias colecções de poemas e escreveu diversos ensaios sobre os problemas concernentes à poesia contemporânea. Viveu algumas temporadas em Paris (1948-1952 e 1969-1972), frequentando as lições de filologia e literatura na Sorbonne e tomando contacto com os pioneiros da cultura vanguardista (Tzara, Breton, Ungaretti, Picasso, Giacometti, etc). Em 1960 recebeu o seu primeiro prémio de poesia, ao qual se seguiram outros e o Prémio Nobel da Literatura em 1979. Faleceu no dia 18 de Março de 1996.

1 Comments:

At 10:23 da manhã, Blogger Amélia said...

O Louvada seja, de Elytis, foi a minha grande revelação em 2004 - e seguramente dos melhores livros de poesia que tenho lido.Ficarei sempre grata ao Manuel Resende por tê-lo trazido até nós.

 

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