3.12.05

Voo picado

Tenho um espelho alto no corredor.
Pronto, lá me encaro eu uma vez mais
E o monstro que vejo em horas tais

Faz-me – está escrito – sempre igual pavor.
É um homem horroroso. Há que abatê-lo,
Esmagado com uma rija martelada.

Não passa de gordura encarquilhada.
Um estranho, é o que é. Eu penso, ai, ai!
Mais um cliché com espelhos que me sai.

É só vidro, vidro morto o que tenho diante –
Mal penso assim, eis que um esqueleto hiante
Surge do espelho e salta-me ao pêlo.

Gerrit Komrij (1944)

Gerrit Komrij nasceu na Holanda, em Winterswijk, no dia 30 de Março de 1944. Poeta, crítico, ensaísta, tradutor, romancista, autor de teatro, antologiador de poesia e colunista, destacou-se como uma voz polémica pelos ataques aos valores estabelecidos do mundo literário, artístico, político e social. Como poeta, Komrij estreou-se em livro com Hemisférios de Magdeburgo e Outros Poemas (1968). Tornou-se um fenómeno, graças a um estilo ímpar, um humor tanto cáustico como hilariante, uma irreverência polemista para com tudo e todos e uma assumida posição de outsider e contravoz no coro de artistas e intelectuais neerlandeses. Apesar dos muitos admiradores, só em 1993 ganhou o maior prémio literário holandês – o prémio P.C. Hooft, só se tornando personagem conhecida do grande público a partir de 2000, quando foi eleito primeiro poeta laureado holandês. Reside em Portugal desde 1984. (Arie Pos, in Contrabando – uma antologia poética, tradução do neerlandês de Fernando Venâncio, Assírio & Alvim, Setembro de 2005)

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