18.1.06

Caro Sérgio,

imagem respigada aqui

Antes de mais, deixa-me agradecer a tua esclarecedora missiva. Quer-me parecer que, no essencial, estamos em concordância. Permito-me porém atirar mais alguma fagulha para a fogueira. Quando rematas defendendo o direito à diferença de opinião, estás a tocar no cerne do problema. Eu, quanto a isso, não estarei tão optimista. O princípio básico da democracia política é o direito ao voto livre. Prevejo para o próximo domingo o discurso costumeiro. Elogia-se o modo civilizado com que os portugueses responderam às eleições, sublinhando-se o facto de todos terem votado livremente. Mas será mesmo assim? É claro que no momento de exercitar o direito de voto, ninguém terá uma granada apontada à cabeça. Porém, digo eu, muitos de nós teremos a cabeça minada pelo lixo propagandístico que nos violentou durante estes dias de campanha. Digo violentou com o intuito de enfatizar o lado obscuro e coercivo das campanhas eleitorais. Sabemos bem da influência contemporânea daquilo a que usualmente chamamos de comunicação social, mormente das televisões, janelas surradas para o mundo, através das quais nos chega a sujidade do mundo. Esse poder a que usualmente chamamos comunicação social raramente nos oferece informação credível, fiável, objectiva. Dão-nos antes opinião disfarçada de informação. É, e isto toca a todos (embora a uns mais do que a outros), na base desse alicerce surrado que muitas cruzes serão desenhadas no próximo domingo. Podia para aqui perder-me em exemplos mais ou menos evidentes e representativos. Alguns são mesmo gritantes. Olha este: em Grândola, um jornalista da TVI reporta a visita de Jerónimo de Sousa; começa a peça afirmando a indignação (avaliação do dito jornalista) com que as gentes de Grândola terão assistido à performance do professor Cavaco quando arranhava os acordes da canção de Zeca Afonso; volta-se para uma cidadã e pergunta: O que sentiu quando viu Cavaco Silva a cantar Grândola Vila Morena aqui em Grândola?, ao que esta lhe responde, com um sorriso nos lábios, que o professor Cavaco enganou-se na canção; o jornalista volta a investir no assunto, junto de um outro cidadão; à mesma pergunta, tenta-se dar uma resposta: Ouça, estamos aqui a receber Jerónimo de Sousa…; o jornalista interrompe abruptamente o interpelado, que ainda se vê a olhar para o lado encolhendo os ombros, e assevera: Pois, mas a verdade é que as pessoas de Grândola ficaram indignadas com as imagens do professor Cavaco a cantar Grândola Vila Morena. Temos assim um jornalista que faz perguntas para as quais só ele sabe as respostas (convenientes). Em directo, a coisa fica mais caricata. Agora imagina se a reportagem tivesse sido trabalhada em estúdio. É destes jornalistas que não sendo de merda, assinam reportagens de merda, que surge a opinião que anda na boca da maioria das pessoas, a mesma que escorrerá livremente até ao papel no próximo domingo. Soluções para isto? A tal educação que escuda o cidadão com o conhecimento, dando-lhe os dados para que ele possa pensar pela própria cabeça e, desse modo, aprenda a resistir ao discurso publicitário, tipicamente persuasivo, daquilo a que usualmente chamamos comunicação social. Curiosamente, Cavaco é, dos Candidatos a concurso, aquele que melhor simboliza a negligência a que a educação e a formação têm sido votadas neste país. Dos candidatos a concurso, é ele o maior responsável pela iliteracia, quando não analfabetismo, dos portugueses. Não é por acaso que quando alguma direita apregoa que nem todos têm de ser doutores e engenheiros, alguma esquerda concorda acrescentando: mas a todos deve ser dada essa oportunidade. É óbvio que a particular afirmativa aplica-se aqui só para não chocar sensibilidades.

(advertência: escrito de jorro)

8 Comments:

At 9:11 da tarde, Anonymous Anónimo said...

é por essas e por outras que a televisão é cá em casa o electrodoméstico menos usado. Já não há pachora. Perfiro os livros

Aurora

 
At 12:38 da manhã, Blogger etanol said...

A televisão só sem som para assistir a sequências de imagens e dar-lhes um novo sentido.

 
At 5:04 da tarde, Blogger Mendes Ferreira said...

Finalmente chego cá.....depois de muitas insónias....:)

pergunto:pode-se ficar por aqui? :)


e não posso estar mais de acordo com este post...inteligente. sensato e caustico. tudo na exacta medida.

a.b.r.a.ç.o. (isa.)

 
At 7:00 da tarde, Blogger Elisa said...

é bom que escrevas de jorro. E que digas estas coisas.

 
At 12:24 da tarde, Blogger Rui Lage said...

Uma coisa é certa: a carantonha do Cavaco vai ser um sucesso no Carnaval. Todos, do velhinho ao menino, vão querer usá-la, seja em látex ou naquele plástico mais barato. Isto, é claro, se as fábricas conseguirem reproduzir o espalhafatoso molde. O monstro de Frankenstein é, de certeza, muito mais fácil.

 
At 2:39 da tarde, Blogger kaku said...

Será a tv em portugal te daira emprego? (não precisas responder... eu já sei a resposta... mas sonhar não custa.;)

 
At 2:40 da tarde, Blogger kaku said...

Tou disléxica!:) Desculpem lá os erros no comentário anterior. É que imaginar esta carantonha mais 4 anos a assombrar a caixa que podia mudar o mundo mas não muda, perturba-me o teclado.;)

 
At 11:21 da tarde, Blogger etanol said...

Olha o Cavaco com cara de boch, perdão, broche.
Maria João

 

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