5.2.06

Eterno Retorno

De penalty
Ontem fui ver a bola a um café numa aldeia aqui perto de casa. Um café cheio de gente com os olhos agarrados a um ecrã de televisão. As bocas do costume, as discussões do costume, as paixões do costume. Há um hábito provincianamente português que consiste em levantar a voz numa discussão, como se fosse o tom de voz a dar-nos a razão que falta aos raciocínios. Quando um português se empolga numa discussão (por exemplo, se foi ou se não foi penalty), é quase certo alguém sair lesado ou nos tímpanos ou na garganta. O volume da conversa roça o grito e, às páginas tantas, já ninguém se está a ouvir. Uns esbracejam para um lado, outros esbracejam para o outro. A gente olha para a televisão e percebe as razões disso acontecer. Numa sociedade avessa ao debate sério (dá trabalho e não faz render o peixe), valerá sempre mais o pathos do discurso retórico do que a argumentação sólida. Provavelmente sempre foi assim. Lê-se Aristóteles e percebe-se que a retórica sempre foi uma ameaça à razão, ao mesmo tempo que lhe era um desafio constante. Claro. O problema é que a retórica, nos dias de hoje, reduz-se cada vez mais ao insulto ad hominem, à graçola inflamada, à ordinarice e ao trocadilho de trazer por casa. Em certas coisas da literatura, o cenário parece não ser muito diferente do cenário nas coisas da bola. Vomitam-se textos sem jeito nenhum para se dizer nada com jeito. O objectivo da coisa toda a gente entende: defender o clube até à morte, como cantam as claques de trogloditas que proliferam pelos campos onde se joga a bola. Mas se no futebol parece aceitável este tipo de pseudo-argumentação, nas coisas da literatura [soa sempre a ressentimento]. Mais que não seja, por esta razão muito simples: é uma falácia tremenda avaliar os outros por padrões que não sejam os seus, ou seja, não se pode avaliar a qualidade de um alho comparando-o com um bugalho. E depois tudo o que seja agressão verbal, será sempre mais do domínio da bimbalhada da bola do que do domínio da intelligentia literária. Se é que me faço entender.
Universos Desfeitos
9 de Janeiro de 2005