17.2.06

Fragmento #28 – O gato Plácido

O gato Plácido mia à janela para a Lua no frio de Janeiro; só se entendem assim, a Lua com o nariz no vidro fica com ar de contentamento descontente, assiste à serenata com desconfiança; ela não sai de onde está, não confia em gatos vadios, nem vai em cantigas facilmente. O Plácido é um vadio de pelo negro luzidio, quase azul-escuro, que conquistou a vizinhança com os seus miados profundos e olhos de mel. Quando surgiu nos quintais das redondezas estava magro, todo arranhado, era uma sombra de gato. A Luzinha do prédio ao lado tratou logo de o perfilhar, levou-o ao veterinário, deu-lhe abrigo, amor, torradas com manteiga e leite; e o malandro sempre que tomava o pequeno-almoço com a Luzinha, vinha a seguir para a minha porta exigir em tom grave e meloso, biscoitos. Arranjei para Dom Plácido um prato onde lhe dei guloseimas e coloquei nas escadas uma fofa cama para ele poder lá dormir a sesta, acho que foi aqui que o seu pêlo negro azul começou a luzir. A Lua não gostou nada do assunto, nunca o deixou entrar em casa, ficava furiosa; ela é uma finória de raça e gosta pouco que a chateiem; não está para aturar cheiro do gato em todo o lado, quanto mais a presença do Plácido na casa; gosta de o ouvir a cantar, ele é muito afinado, tem uns belos graves, mas lá fora na rua, nada de abusos, se não há arranhão que ferve; a Lua assopra como uma serpente quando abro a porta para ir ter com o Plácido.
O Plácido também me conquistou com os seus cantos, mas estou sempre atenta às opiniões da Lua, por isso nunca o deixei entrar; levo-lhe biscoitos fora de portas, ele mia, fica todo contente, rebola-se no chão, tapa um dos olhos com a pata, de barriga para o ar todo satisfeito; mas o gato é um grande sacana, adora seduzir, faz ronrom, roça-se nas minhas pernas, espera que eu me distraia e ferra-me com os dentes, deixando-me num ai!; depois foge como uma flecha, não me dá tempo nem para uma pantufada ou outra coisa qualquer. A primeira vez que isso aconteceu, eu nem queria acreditar, fiquei com um pé inchado, com a marca dos seus dentes. Avisei a Luzinha desta faceta de Dom Plácido e ela achou que o problema era meu, não era com ela. Até que chegou a vez da Luzinha levar uma dentada, e a Pepa, a gata da vizinha levou literalmente uma sova. Agora, a Luzinha quando vai ao quintal leva umas luvas de jardinagem para se proteger das suas dentadas, colocou-o fora de casa, já não tem abrigo, nem pequeno-almoço luxuoso. Só lhe resta a cama nas minhas escadas, os meus biscoitos e o vidro da janela onde canta para a Lua desconfiada. A Lua tem razão, ele não é de fiar, é melhor assim, apesar do frio nas noites de Janeiro.

Maria João

3 Comments:

At 2:47 da tarde, Anonymous hmbf said...

Não gosto do Plácido. É pobre e mal agradecido.

 
At 2:42 da manhã, Blogger Quark said...

A culpa não é do Plácido,
a culpa é das mulheres que se enganam a ver
os olhos dos gatos.

 
At 6:11 da tarde, Blogger etanol said...

eu gosto do Plácido, apesar do seu feitio peculiar. Não posso é deixa-lo entrar dentro de casa, porque ele está desejoso de dar uma sova na Lua, expulsa-la e apropriar-se do seu espaço. Os gatos em questões de territórios são lixados. O plácido é pobre porque quer, ou de outro modo, é um vadio e tem uma vida dura porque quer. Eu gosto dele com as suas qualidades e defeitos, continuo a dar-lhe biscoitos, mas estou atenta às dentadas. de qualquer modo, dá jeito ter um gato no quintal porque caça ratos - coisa que a Lua não faz, é uma gata finória de apartamento.

 

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