13.2.06

Cartoons não matam pessoas # 2

imagem respigada aqui

A discussão sobre o direito de um jornal publicar uns cartoons islamofóbicos, discussão que depressa degenerou para outra sobre os limites da liberdade de expressão, resvalou com a velocidade de um cometa para o lamaçal do etnocentrismo cultural mais básico. Leia-se, a título de exemplo, esta afirmação escabrosa de Miguel Sousa Tavares no Expresso: «Hoje, ao contrário do que sucedia em 1492, não conhecemos, em todo o mundo árabe, o nome de um cientista, músico, arquitecto, cineasta, explorador, atleta, enfim, alguém que faça sonhar ou avançar a humanidade.» Assim num repente, lembrei-me logo do quão injusta é esta afirmação para com gente como Abbas Kiarostami, cineasta nascido em Teerão no ano de 1940, autor de um dos filmes mais extraordinários da década de 90, O Sabor da Cereja, ou para com outros como o cantor paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan (1948-1997), entre tantos outros mais ou menos conhecidos. No entanto, podíamos colocar a questão ao contrário: que nomes conhecemos hoje em todo o mundo islâmico que nos impeçam de sonhar como no mundo ocidental impediram Hitler e Estaline até há meia dúzia de décadas? Farão sentido estas questões? Julgo que não. No mundo islâmico sempre existiram, mais komenis menos komenis, ayatollahs fanáticos, lunáticos, desvairados. Assim como no mundo ocidental dificilmente nos livraremos de políticos populistas, oportunistas e sanguinários. Não sendo especial adepto do relativismo cultural, devo dizer que sou muito menos de qualquer forma de etnocentrismo. No ruído em erupção, no meio do duelo fanático entre os anjos do bem e os energúmenos do mal, na batalha entre cowboys e índios, neste medir de forças entre polícias e ladrões, onde andarão as ditas vozes moderadas? Não me admira que do lado de lá não se façam ouvir. Têm razões para ter medo. Mas e do lado de cá? Que razões terão para temer a mais básica moderação? Nenhumas, daí que seja imperdoável a sua ausência. O espectáculo (deplorável) de quem gosta de brincar com o fogo está montado. A malta quer sangue. No entanto, permitam-me que vos lembre o quão improvável será uma Clara Ferreira Alves e um Miguel Sousa Tavares de camuflados vestidos e metralhadora a tiracolo. Lembrem-se que, na guerra civilizacional em marcha, a imagem de um Vasco Pulido Valente encafuado num tanque, apontando miras a mesquitas e fanáticos do Islão, assim como a imagem de um Vasco Rato ou de uma Constança Cunha e Sá de obuses ao ombro, disparando contra hordas de infiéis da liberdade, é pouco mais do que ridícula miragem. Acreditam mesmo que eles darão o corpo ao manifesto quando, no rasto da ira que manifestam, a guerra soar a nossos pés? Eu não. Pum, pum, pum! Eu, não. A guerra já começou, embora ainda vá no adro. Quando for a sério, os do papel serão os primeiros a dar ao slide.

5 Comments:

At 12:56 da manhã, Blogger LiZZie said...

Henrique
Nada a ver com o post. Mas deixei-te uma proposta para continuares uma corrente... bah... :-)))
Beijo

 
At 1:47 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Quem é esse tal de Miguel Sousa Tavares?
Eh pá, H., penetro o sossego do frenesim: hoje tudo isto e tudo aquilo me metem nojo, restos e vómitos, profissionais da semiótica, enfim, remédios próprios para fazer crescer o membro...
CSA

 
At 1:56 da manhã, Blogger Alien David Sousa said...

Ningém anda a prestar atençao " to the big picture". Aqueles que já leram os meus pensamentos ficarão esclarecidos de verdade.

 
At 11:27 da manhã, Blogger Darlan M Cunha said...

Prezado Henrique Fialho,

Muito de acordo com a sua posição a respeito deste assunto, escrevi algo no PALIAVANA (07.02.2006).

Aproveito para deixá-lo ciente da postagem do seu poema, da série Dicionário de Gestos, [24}. face a face. No mesmo blogue.

Um abraço.
Darlan M Cunha

 
At 12:52 da tarde, Anonymous hmbf said...

Caro Darlan,

obrigado pela atenção.
Não era necessário aviso,
pois sou visita diária
do Paliavana.

Saúde,

 

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