7.2.06

OS PRECONCEITOS DA RITA

Nos tempos da faculdade de direito de coimbra dizia o orlando de carvalho ser o casamento um contrato que pressupõe uma fusão de valores em que há um que funde e outro que quer ser fundido. A senhora rita lobo xavier, professora de direito da família da faculdade de direito da universidade católica, vem agora (Público de 06.02.2006) defender que “duas pessoas do mesmo sexo não devem casar-se”.

Vale a pena seguir alguns argumentos da senhora, como prova (desnecessária mas enfim) de que a estupidez e o preconceito tendem a amparar-se solidamente:

“A instituição do casamento tem origem no facto de a pessoa humana ser homem e mulher”

A senhora rita é da estirpe que nunca conseguirá perceber que o casamento é uma construção social que exprime um determinado conteúdo de poder numa sociedade que ocupa um dado tempo histórico. As construções sociais são possibilitadas por, ao mesmo tempo que exprimem, um discurso dominante que chega a plasmar vontades com força de lei. O conjunto de “soluções” encontradas num conjunto de regras como, por exemplo, o Código Civil português pode entender-se, assim, como expressão e revelação de um discurso, visão do mundo, poder, dominantes em determinado contexto (ocidental, europeu, português). Mas a senhora rita, claro, deve considerar o objecto das regras existentes, especialmente no que diz respeito ao tema que analisa, como assuntos de raiz puramente biológico-binária e o conteúdo de tais regras como de enfoque avindo com o Direito Natural, expressão do justo, de inspiração divina- carregada como está de milénios de pensamento judaico-cristão e incitamentos platónicos.

“…com uma inclinação sexual recíproca que é condição da geração dos futuros membros da sociedade…”

Quer dizer que duas pessoas casadas que não tenham filhos são menos casadas? Serão mesmo solteiras, sendo o casamento nulo ou anulável? E se a tecnologia permitir que duas pessoas do mesmo sexo reproduzam, devemos considerar essa tecnologia como anti-casamento ou mesmo anti-sociedade?

“Quero realmente conservar a instituição do casamento…não me importo de ser conservadora”

Devo lembrar aqui que, se alguma coisa há que permitiu a nossa sobrevivência, a, como lhe chama, “continuidade da humanidade”, essa coisa é a mudança. Não será importante, para garantir a “continuidade da humanidade”, achar natural que as instituições (incluindo a do casamento) mudem, contribuindo assim para conservar a mudança?

“Estes movimentos que estão a apoiar as duas mulheres que ambicionam casar querem fazer-nos acreditar que a humanidade se divide em heterossexuais e homossexuais e não entre homens e mulheres, confundindo preferências sexuais com identidade sexual”


Admitindo que cada um de nós tenha uma identidade (e não várias, ou uma não-identidade ou outra coisa qualquer), não achará a senhora possível que as preferências sexuais contribuam para a (in)definição daquilo que designa como “identidade sexual”, deixando por isso de fazer sentido falar das duas coisas separadamente e aumentando ainda mais a confusão na sua (pobre) cabeça?

Não sei se a senhora rita é homem ou mulher, no entanto creio tratar-se de sintoma claro de tremendíssima falta de sexo. O que, diga-se, terá pelo menos a vantagem de não ser uma doença sexualmente transmissível…

Rui Costa

6 Comments:

At 2:33 da tarde, Anonymous Darlan M Cunha said...

Uma explanação pertinente pelo fato de situar bem o que seja, digamos, uma premência pessoal e o que seja ditado pelos nós ou nódulos sociais advindos do peso judaico-cristão, das associações com a visão de mundo grega, do direito romano, da 'ameaça' de, num só, vigorarem a fisiologia e a anatomia (biotecnologia)

 
At 6:05 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Aiiii, como se deve estar a espernear a senhora rita... Cumpriu a função com dois filhos e cumpre o dízimo, certinho. Desconfio até que de vez em quando deve usar a auto flagelação como alívio de sintomas "degenerativos" da incompreensão do mundo à sua volta...
E depois temos cartoons...

Arre! Religiões Malditas!

 
At 7:49 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Oh, Rui Costa, você está a ser um bocadinho injusto com a D. Rita. Não é que você não tenha razão, claro que sim, mas não está a levar em consideração o esforço herculeo que a Ritinha (uma sra. católica e, presume-se, ancorada nos pântanos do CDS) teve que fazer para conseguir produzir um texto inteiro sem erros ortográficos nem de concordância. Isso a mim parece-me coisa notável e muito digna de louvor. Antigamente, as senhoras da sua condição exprimiam-se em bordados; actualmente, até já têm opinião escrita sobre coisas tão embaraçosas e pungentes como a sexualidade. Sinal de que a educação tem feito o seu caminho (lento, sinuoso, mas imparável)no intelecto da classe possidente. Não me diga que não vê aqui um enormíssimo progresso! Se o "pensamento" de Ritinha acerca destas questões é ainda muito rudimentar, nem por isso devemos deixar de aplaudir o seu esforço. Há que ter paciência, Roma e a curia não se desfazem num dia, acho eu. Dê-lhe mais três gerações, e verá como a Excma. Sra. D. Rita Lopo Xavier já será capaz, não só de escrever sem erros, mas até com alguma espécie de sensatez.
Por isso, quero daqui saudar o esforço da sra. em questão. Força, Rita! Que o farol da ilustração continue por muito tempo a iluminar a tua nobre cabeça!

Uma nota para o editor do "Público". Parece-me excelente a iniciativa de dar voz aos mentecaptos, pois a democracia da opinião não deve esquivar-se aos perigos da desinteligência, mas começa a parecer-me demasiada generosidade da parte de um jornal "de referência" esta sua recente propensão para só dar voz a estultos. Compreendo perfeitamente a necessidade de equilibrar as coisas, mas um jornal que tem como cronistas o Prado Coelho, a Helena Matos, a Ester Muchnik (ou lá como se escreve) e o E. Pitta, entre outros, já está, penso eu, muitíssimo bem servido de opinantes papagaios; não me parece de todo urgente, pois, contratar novas plumas de calibre Retrô. Muito pelo contrário. A menos que pretendam especializar-se nisso e ameaçar a posição cimeira que o "Expresso", nesse âmbito, há muito detém.

JMS

 
At 3:16 da tarde, Anonymous Anónimo said...

darlan: obrigado pelo comentário.
anonymous (!): essa do dízimo fez-me lembrar um poema da natália correia a propósito de um deputado português...vou ver se o encontro.
JMS: a senhora rita está procupada com os filhos, tem medo que eles não possam casar por causa desta gente maldita que anda a destruir o casamento. Quanto ao Público publicar, talvez não seja mais grave que o facto desta senhora ser professora de direito numa universidade...fosse o que fosse,nem que seja professora de papagaios. Ficamos (se não soubermos já) a saber das pessoas que andam por aí, a ensinar, a dar opiniões, e isto, no meu caso, faz-me ter vontade de dizer e fazer mais do que o que faço.
Rui Costa

 
At 3:32 da tarde, Blogger Susie said...

Querido Rui, o poema da Natália para que me remete o pensamento da senhora rita é o seguinte:
O Acto Sexual É Para Fazer Filhos" - disse ele.
Já que o coito
- diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o orgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado."

Um poema de Natália Correia a
João Morgado, deputado do CDS/PP
Proclamou-o na Assembleia da República, estava em causa, se não me engano, a lei do aborto.

Muito a propósito, acho eu!

E não, não dava a aulas a papagaios, alguns de nós achavamos estar, sim, a ser ensinados por uma arara!

Susie

(o 1º comentário saiu em anónimo mas, foi sem querer ;)

 
At 4:38 da tarde, Anonymous Anónimo said...

susie: é esse mesmo, foste mais rápida do que a minha preguiça. quanto à tua professorArara, puxa vida só partindo o bico...
Rui Costa

 

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