25.3.06

DIFÍCIL MEDICINA

Ao curar doenças é preciso usar venenos
uma palavra
não quando o sim está de cama.
Pequenas concessões enfraquecem a voz toda
e se um poeta canta esperemos mais um ovo.

Bom para gemadas. Mas há que juntar veneno.
Beba-se a mistura como um álcool que nos queima
e vai matar da cura. O
não é como um álcool
em verdade envenenante – o século tresanda!

Basta de alcoólicos. Queremo-nos curados
bons a olhar de novo para a esfinge interrogante.
Havemos de beber outra vez de um vinho puro
nós e as palavras – que elas amam não saber

de
sins e de gemadas, de nãos e de venenos.

Carlos Poças Falcão

Carlos Poças Falcão nasceu em Guimarães em 1951. Licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra em 1976. Exerceu advocacia durante algum tempo, acabando por dedicar-se à docência e à escrita. Estreou-se na poesia em 1987 com o livro O número perfeito, com o qual havia obtido, em 1984, o prémio revelação da APE. Com O invisível simples, de 1988, obteve o prémio Vítor Matos e Sá, atribuído pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Com colaboração dispersa por várias revistas (Limiar, Via latina, Orpheu 4, Phala, Cadernos do Tâmega, Telhados de Vidro), Carlos Poças Falcão é um dos mais singulares poetas portugueses da sua geração.

1 Comments:

At 12:25 da tarde, Blogger JMS said...

Um grande, grande poeta. Das vozes que por cá emergiram nos últimos vinte anos, não há nenhuma que se lhe compare, uma voz límpida e ritmicamente segura, quase encantatória na sua toada envolvente, apoiada no dodecassílabo, que é um metro raramente usado na poesia portuguesa. Excelente.

 

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