21.3.06

O UNIVERSO SENSUAL

João Habitualmente, Os Animais Antigos, Objecto Cardíaco, Janeiro de 2006
“Animais antigos”, de João Habitualmente, recentemente lançado pela novíssima Objecto Cardíaco. Há muito neste livro.

Há a memória, primeiros versos onde se anuncia a predisposição de sempre: a bicicleta que o levou ao sol, à praia, ao sal, às raparigas. O movimento da bicicleta é o de um ser curioso e para este o único caminho é o que o leva às coisas. Esse movimento é pessoal e constitui o mundo, nenhum olhar é passivo. A bicicleta é uma metáfora da vida. Essa viagem é “astral” porque tudo quer. E este olhar é táctil, feito da atenção que toca as coisas e as distingue e quando merecem se demora nelas: “Seria vulgar falar duns olhos/ se não se desse o caso de serem os teus”. Tudo conta e nada se pré-exclui: “A frase mais linda pode ser irrisória”. A fruição pode deter-se, como em quem sabe a paciência: “Vou aprender a espera/…/E esperar o dia em que ergas a casa comigo”. Cria-se movimento imóvel, paradoxalmente: “Fixo-te ao meu desejo:/não partes nem chegas/…/Acabou-se o antes e o depois”. Conhecer nem sempre é fácil – sendo viagem, é tão difícil como partir: há “Pássaros que não migram/só para não sofrerem a partida”. Ou assim: “Primeiro, tudo são carícias/…/Depois abre-se o tempo em abismo.”

A aldeia. João Habitualmente escreve da aldeia “o abismo do seu tempo”, é aí que as coisas se mexem e não saem do lugar, o “lugar onde os cães se afastam por profissão”. A aldeia é também o lugar mítico onde a sensualidade se realiza na sua impossibilidade, quer dizer: “as raparigas da aldeia” estão lá, ou estiveram, ou “eu” estive lá e sei que elas existem mas se elas (ainda) existem é por causa do poema. Este desejo não é o de Lacan (o preenchimento de uma falta), é mais do que isso: somos “desiring-machines” (Deleuze) e é do puro movimento do sujeito que se trata. Não perdemos nada, nada nos falta. No entanto desejamos – somos a própria matéria do desejo – e escrevemos, o texto é agora o lugar do conhecimento (também em sentido bíblico).

E mais a ironia. Mas ainda o desejo - Porque o desejo é tudo, também é enormemente inconsequente ou até fútil – não há um “algo” que o satisfaça. Não há - por isso é que é desejo. E a ironia é isso que nos mostra em “Plano estratégico”. “Ele” trabalhando longamente em seu plano de sedução, o tal que o levaria a “Tirar-te a blusa/passar rente à seda do púbis”. Mas libertando-a mesmo sem preparar a bebida: “já não bebo/e se bebesse não era contigo/agora que já te bebi/Tinha para ti um plano em que trabalhei longamente/mas já o perdi”. Não é o facto que interessa, é a construção que dele fazemos. O contexto, as ligações que cada cérebro estabelece para cada lado em que vivemos. Projectamo-nos, sempre, antes e depois, nenhuma resposta é de um só estímulo e toda a causalidade é “nonsense”: “não te quero a nudez/só quero despir-te”.

Há o humor, com trocadilho temático de menina à janela em “Canção alentejana” (menina que afinal não estava lá), mais vocabular em “Ideias fixas” (mas sempre este recurso estilístico mais contido do que em “Notícias do Pensamento Desconexo”, livro anterior da Edições Mortas), e o pastiche de “Mosaico”, colagem de versos de autores como Pessoa ou Eugénio de Andrade, por exemplo assim: “E já te disse: os poetas estão gastos./Trata-os como a fedelhos/vai-lhes ao cu, dá-lhes conselhos/manda-os apanhar chuva oblíqua.”

Não se trata de uma linguagem “legível” à luz de debates que ao purismo (puritanismo?) da palavra oponham a “poesia da experiência”. Há lirismo e metáfora mas também há o que eu chamaria a épica do concreto. É a potente alegria de saber que tudo existe em sua pequena glória sempre que se (re)vive o corpo das coisas, se evoca num texto a sensualidade do mundo, e é então que o olhar ilumina e nós sabemos o lugar ainda cheio destes animais antigos. Comprem o livro e leiam pérolas como esta:


AS RAPARIGAS DA ALDEIA

Tenho sonhado às vezes
com as coradas raparigas da aldeia
trazem um leve cheiro à palha
e preenchem-me a necessidade
de mamas abundantes.
Convidam-me
mesmo quando olham para o chão

Tenho a impressão
de que fodem como animais antigos:
na lentidão de enormes carapaças
num fragor de pedras
cravando espinhos ao rebolar

Preferem a luz turva
do fim do dia
retornam ao povoado discretas
na companhia dos bois
e um botão a menos na blusa

Gosto das raparigas da aldeia.
Aos domingos de manhã
varrem o lar e dão lustro às panelas
de tarde andam em ranchos
dão gritinhos, fogem para o mato

Quem me dera pôr-me nelas!


Rui Costa

9 Comments:

At 9:24 da manhã, Blogger fdinis said...

Ó Rui!!
Mas que ode magnífica!!!

 
At 9:34 da manhã, Blogger Rui Lage said...

Este poema - ode, como muito bem diz o fdinis - para mim, é já um clássico da moderna poesia portuguesa. Um clássico "retro", é verdade, porque fala de um mundo que já não existe, ou que já só existe residualmente (o das raparigas da aldeia que "retornam ao povoado discretas
na companhia dos bois" e que "de tarde andam em ranchos"), mas ainda assim um clássico. A não perder.

 
At 1:13 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Patético!

 
At 1:23 da tarde, Blogger hmbf said...

Acontece que ontem, em conversa via MSN, estava precisamente a dizer ao Rui que achei este livro excepcional. No entanto, este poema não é dos meus preferidos. Há outros bem melhores. Por exemplo: O sítio inverso, Drácula apaixonado, Matemos a aldeia I e II. No entanto, caríssimo anonymous, deixe-me dizer-lhe que não há nada de patético em um homem pretender pôr-se naquilo que traz em sonhos. Olhe bem o primeiro verso: «Tenho sonhado às vezes». Que outra coisa podem os poetas fazer, senão trazerem ao presente os sonhos que trazem do passado? Deixemos o futuro aos astrólogos, já têm trabalho que lhes chegue entre mãos.

 
At 1:07 da tarde, Anonymous Anónimo said...

mamas abundantes.. Não ficaria melhor do ponto de vista audio-visual "mamas grandes e abundantes?

 
At 1:11 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Tenho a impressãp de que.. Não ficaria melhor "Presinto que...

 
At 1:00 da tarde, Blogger blimunda said...

bucólica campestre

e diz lá, rui costa, se ao entardecer, depois de
nos virmos atrás das medas e tu
a contares quantos fardos conseguimos carregar
entre uma vida que é a tua
e uma vida que é a minha,
diz lá, o mosto saberá a quê?

a luz do sol sai coada por entre os campos rasos,
agora, e agora mesmo, cheiramo-
nos igualmente
: á terra suada em torrões secos, à saliva do dia
morrendo devagar por debaixo do canto rouco
de uma cigarra, ao sexo, ao sexo feito às pressas
: as calças baixas até ao alto dos joelhos, a saia toda
desbotada do roça que roça, e uma urgência quase audível com a palha a sair-nos por entre as pernas.

: não uso cuecas e o fio do teu esperma
desce-me manso pelas pernas
até ao calcanhar direito.

quando nos chegarmos aos outros havemos
de beber o vinho novo e rir,
está bem?


(ao delicioso rui costa oferece a blimunda em sinal de devoção)

 
At 5:37 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Eu, de facto, detestei este poema. E nem sequer é por puritanismo poético. Poder-se-ia escrever muito melhor sobre esse sonho sem ser assim tão óbvio e vulgar. É a minha humilíssima opinião. Saudações.

 
At 10:14 da tarde, Anonymous dapin said...

Depois de ler toda esta polémica fica-me o desejo de ser rapariga da aldeia; só para ser desejada assim e poder aquecer no peito os poetas lúbricos... (haverá algum que não o seja?).

 

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home