25.4.06

Aragem

Era Outono, já crescera, florescera e dera frutos. Agora, sentado num banco estilizado de um ex-jardim, fazia o pousio.
No frio do Inverno próximo quase tudo era indiferente. A sombra coada das magnólias marcava o chão de desenhos ilógicos. As pessoas que passavam só raramente estavam lá.
Bailava-lhe na mente aquela palavra difícil, substantivo de dicionário, fazia-se comummente acompanhar de verbos como dar, tirar, ou mais complicado ainda partilhar. Vida. Que se tem, que se teve.
O ex-jardim tornou-se um ex-espaço, ex-remodelado por um ainda arquitecto famoso.
Uma fina aragem arrepiou-lhe a nuca. Desatou a melancolia. Olhou para o lado, não havia ninguém.
Existiam apenas lembranças no caminho para casa, das pedras, da extinta loja da esquina. A cidade sofria mutações lentas, umas de velhice outras de fúria.
Uma escadaria puída conduzia à ex-casa, ex-lar, mera habitação. O garrido dos reposteiros contrastava com o verde-escuro da alma, as estantes cheias de livros mantinham-se mudas e o tempo tornara o canário monocórdico. Nem sempre assim fora, houve um tempo de sol aberto em dias nebulosos, de calmaria nos passos dados.
Na então casa, a ex-mulher, ex-amante e ainda amada enchia cada canto de plenitude. Os livros nas estantes espalhavam versos nos espaços, os reposteiros avivavam ainda mais as cores das plantas e o canário nunca cantava menos que uma sinfonia.
O pó dos anos toldou a memória. Frustrante a memória. Magoa em cada sinapse porque torna demasiado presente a ausência.
Quando o hábito forçou o abrir de uma janela, a fria aragem atingiu-lhe o rosto e com ela a consciência que, até a sopa era de ontem. A roseira na varanda há muito não dá flor. Tem as raízes sufocadas de nós que ela própria deu.
É o melhor espelho que possui.
Cada minuto é um ano. Desde que lhe deram ânsias de morte o tempo abrandou.
No Inverno próximo há um lar. Chamam-lhe assim decerto porque nunca tiveram nenhum. Aí os reposteiros são brancos e higiénicos. E senhoras não menos brancas e higiénicas suprem as necessidades. Dizem. Há um jardim verde com pássaros devidamente afinados e a sopa, essa é sempre de hoje. Mas vontade de comer gastou-se, como se gastaram de passos, as escadas.
Aurora Silva

3 Comments:

At 6:53 da tarde, Blogger M said...

gostei muito.vê-se tudo.

 
At 7:28 da tarde, Blogger Silvia Chueire said...

Muito, muito bom.


Silvia

 
At 8:46 da tarde, Blogger Zita said...

Sim, vê-se um ódio que não tem salvação...
Que o ódio se transforme em amor, já que não pode ser por 'ela' que o seja por outra pessoa. É este o meu desejo. Um desejo de amor.

 

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