10.6.06

A QUALIDADE DA INSÓNIA

Tenho um toiro fustigado nos pulsos
e por companhia a dúvida melódica
de fazer caber o poema na palavra prometida
ou de como o pomar resgata os seus filhos
se depois de perdidos se rende
à metódica certeza da devastidão.
Sossegar o peso das perguntas
nas olheiras deste vento com cio,
é o mesmo que tentar ascender nos fios da chuva
até à nuvem minada de litígios.
Resta-me aquiescer à qualidade da insónia,
conceder todo o campo às palavras amotinadas.
Talvez alvoreça uma rosa de orvalho
por entre as ruínas da madrugada revolvida.

Paulo Ferreira Borges
Paulo Ferreira Borges nasceu em Pataias em 1961. Estudou Direito na Universidade Clássica de Lisboa. Colaborou com o suplemento literário DN – Jovem, do Diário de Notícias, e com o Jornal de Letras, Artes e Ideias. A sua poesia foi várias vezes distinguida, sendo de destacar o Prémio de Revelação de Poesia da APE/IPLB de 1999 pelo livro Para Tentear a Desmesura e o Prémio de Revelação de Poesia Fernando Pessoa de 2001 atribuído ao livro A Água Materna dos Poentes.

3 Comments:

At 1:51 da tarde, Anonymous Darlan M Cunha said...

Por qualidades assim -de minar o campo das palavras e desassorear os rios que cá por dentro se desunem, desunindo-nos- é que poesia como esta se faz benvinda.

 
At 7:33 da tarde, Anonymous m.n. said...

mensagem torrencial que só depois de muita chuva e temporal pode fluir como se ao corpo não ouvira já...
gostei,
muito
da esperança ainda...

 
At 10:18 da tarde, Blogger Silvia Chueire said...

Belíssimo poema !

 

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home