7.6.06

Bom dia, desenho a mesa de café onde abandono
um retrato a sépia, um risco, outro risco, um rosto.
Amareleço, alivio a consciência, a manhã, os gozos
e a angústia deste frio que, de súbito, invade a cidade.

Alguém me estende um maço de cigarros, e um isqueiro,
escondo-me atrás de um jornal, procurando ignorar
os que se aproximam, sorrindo, querendo dizer-me
qualquer coisa. Leio os anúncios, faço os crucigramas,
finjo preocupar-me com um descarrilamento na índia
e suponho que julgam que ando à procura de emprego.

Alguém fala do tempo, que vai chover, que o boletim
meteorológico não sei quê, mas fecho ainda mais o rosto
para que ninguém me pergunte que horas são, se o fumo
me incomoda. Na verdade, finjo que a terra já desapareceu.

José Viale Moutinho

José Viale Moutinho nasceu no Funchal em 1945. Escritor, jornalista no Diário de Notícias e investigador de temas literários e linguísticos, particularmente ligados a escritores portugueses do séc. XIX, participou no movimento português da Poesia Experimental e em exposições de Arte Postal. O seu primeiro livro, Urgência, data de 1966. É autor de numerosos textos em catálogos de Artes Plásticas, de obras de literatura Infantil, crónica, ensaio e organizador de volumes colectivos. Tem publicação dispersa em revistas e jornais, traduziu romances, ensaios e peças de teatro. Obteve vários prémios literários e de jornalismo. A sua obra foi traduzida em diversas edições estrangeiras, nomeadamente para asturiano, castelhano, galego e catalão, italiano, alemão.

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