18.7.06

Dúvidas que me assolam

Tomamos consciência da real dimensão da nossa literatura quando pensamos nos “malditos”. Penso em Alfred Jarry, Antonin Artaud, Allen Ginsberg, Francis Picabia, Pierre-François Lacenaire, Charles Bukowski, tantos outros. Só na literatura francesa encontramos duas mãos repletas deles. Tantos que fazem estilo. Quem são os nossos conterrâneos equivalentes?

23 Comments:

At 5:57 da tarde, Blogger FAG said...

Ainda a opinião, Henrique. Em Portugal, quem faz a opinião literária são académicos (e as academias limitam com os seus muros grossos e respeitáveis), são uns críticos também académicos a quem a subversão incomoda porque não sabem se ela tem «valor», vai ter «êxito», pelo que preferem calá-la. Enfim, são funcionários, e o funcionário tem medo de errar. Ora, o escritor, vista aquela opinião, alinha nela, porque se não alinhar é pura e simplesmente ignorado. E o leitor tamb´m só quer ler aquilo que não o perturba. E o editor é o elo deles todos e é feito do mesmo metal. E assim se reproduz a bem-pensância, às vezes travestida de modernismos pseudo-audazes. No fundo, ninguém quer tentar escrever, ou ler, os seus pensamentos mais fundos.

 
At 6:16 da tarde, Blogger Vida Involuntária said...

bzDesde logo Manuel Maria Barbosa du Bocage, sem os falsos acrescentos, truncagens, arrependimentos, cozinhados pela Inquisição.
Creio que à sua maneira a geração dos "Vencidos da Vida", foram uns "malditos" para os cânones da época.
Morreu há escassos anos, em Braga, um poeta que era um sem-abrigo, por opção própria, de seu nome Sebastião Alba. Metia poemas manuscritos debaixo das portas ou na caixa do correio dos poucos amigos. Saiu, pelo menos, um livro póstumo.
Como todas as designações, "maldito" arrisca-se a ser algo redutora se não se tiver em conta as dimensões temporais e locais da "maldição". E de que ponto dre vista ela é criada.
Éu sou sempre pela procura de similitudes em tempos e estéticas diversas. Não gosto muito de compartimentos estanques.
À sua maneira, Alberto Pimenta não o será?
Adília Lopes tinha tudo para o ser. Mas desde que se decidiu a ser passa-culpas com flops televisivos e auditórios de neurónios anoréticos, perdeu o direito a esse pedestal.
Porque até para se ser maldito é preciso coerência.
E não terá sido "maldita" a magnífica atitude de Herberto Helder, recusando há anos os dez mil contos do Prémio Pessoa?
Faz lembrar o Sartre, "o divino estrábico" - uma das minhas paixões adolescentes - recusando o Nobel da Literatura...
Benditas maldições que envergonham a ganância de celebridade, a mesquinhês ou a vidinha egolatra e conformada do "estou-me a cagar", de tantos candidatos a "malditos".

 
At 6:24 da tarde, Blogger Vida Involuntária said...

O "bz" inicial é4 gralha. Culpa do maldito hieróglifo que é preciso teclar para fazer entrar o comentário.

 
At 6:39 da tarde, Blogger rui said...

Históricos: Bocage, Chiado, Cavaleiro de Oliveira, Abade de Jazente, (um certo) Camilo, (um certo) Fialho, Gomes Leal, Judith Teixeira, António Botto; recentes/actuais: Cesariny, António Maria Lisboa (e outros surrealistas...), Pacheco, Sebastião Alba, António Gancho, Paulo da Costa Domingos.
Lembro-me de três antologias que podem dar boas pistas para esta "questão" (ia a dizer "problemática", vejam só!): "Antologia da poesia portuguesa erótica e satírica" (abrange 700 anos da nossa literatura), "Edoi lelia doura" (finais do séc. XIX até aos anos 60 do XX) e Sião (finais do séc. XIX até aos anos 80 do XX)
Eu estou práqui a debitar nomes e informação, mas isto dos malditos é muito relativo, sobretudo porque há sempre os malditos que só são descobertos três gerações a seguir e até aqueles q nunca são revelados.

 
At 7:15 da tarde, Anonymous hmbf said...

Para já, estou a gostar muito dos vossos comentários. Tinha pensado nesses nomes todos e em mais alguns. Mas em boa verdade vos confesso, ao pé dos citados no post esses todos parecem copinhos de leite. Digo-o na brincadeira, como é óbvio, até porque a literatura não se faz de aspectos tão marginais. A questão que se me coloca é outra. Os nossos “malditos” (as aspas não são por acaso) parecem-me muito pouco humanos e demasiadamente escritores. À excepção de um ou de outro, os grilhões da moral falaram sempre mais alto. Ângelo de Lima, conta Albino Forjaz Sampaio, foi parar a Rilhafoles por culpa de extravagâncias como vir à varanda de casa completamente nu. Das duas, uma: ou somos mesmo um povo de brandos costumes ou baixamos demasiado as calças à lei. Já agora, alguém me sabe dizer de um escritor português que tenha sido assassino?

 
At 7:35 da tarde, Blogger Vida Involuntária said...

Grande RUI!

Quase completamente, de acordo. E eu que me esquecia do Pacheco, que me chegou a enviar pelo correio, uns livrinhos, interiormente embrulhados em papel higiénico...

O Cesariny, o Botto, etc E quanto aos "clássicos", muito bem.

Mas, o que mais me motiva, nesta temática, inteligentemente lançada pelo Henrique, é o conceito, fronteiras, variantes e invariantes de "autor maldito", uma vez que às vezes, ele próprio despreza esse conceito de autoria, como sabe.

 
At 7:57 da tarde, Anonymous hmbf said...

Vi, como não sei se conhece o weblog do Rui, convido-a a ir aqui: http://ruialme.blogspot.com/. Há um outro que, não sendo propriamente “maldito”, escreveu um dos poemas mais deliciosamente malditos e actuais da história da poesia portuguesa. Chama(va)-se o poeta Tomás Pinto Brandão e o poema «Este é o bom governo de Portugal». Não esqueçamos também Gil Vicente e meio português meio brasileiro Gregório «Boca do Inferno» de Matos. A colecção «contramargem», da & etc, seria um óptimo princípio. Quanto à noção de “autor maldito”, lembro-me de há pouco tempo, aquando do aparecimento entre nós de um livro de Leopoldo María Panero, ter lido a alguém que Panero é “o paradigma do autor maldito”. Ora, eu pensei logo que a expressão era uma negação do que pretendia afirmar. Não pode haver um paradigma de autor maldito porque isso seria negar a própria noção de maldito. A Vi dá um bom exemplo. Julgo que Adilia Lopes é “maldita” no sentido de contra a sua poesia, quando não contra a pessoa, se levantarem todas as formas canonizadas de ver esta questão. Repare que a própria Vi não escapa ao preconceito, quando diz: «Adília Lopes tinha tudo para o ser. Mas desde que se decidiu a ser passa-culpas com flops televisivos e auditórios de neurónios anoréticos, perdeu o direito a esse pedestal. Porque até para se ser maldito é preciso coerência.» Não será esta “negação de estatuto” a afirmação mais lógica de Adília como “autora maldita”?

 
At 8:02 da tarde, Blogger Vida Involuntária said...

Ó Henrique, assassino não me ocorre, no momento, mas muitos (tantos!) estiveram em masmorras, limoeiros, suplícios e foram assassinados "LEGALMENTE".E muitos como o Sá Carneiro, "assassinaram-se" a eles próprios.
O Camilo, para além de presidiário e suicida e já agora, filho "natural", parece ter praticado "necrofilia", isto é, sexo com uma morta.
Mas esta é séria.
Não é piada a senhoras frígidas...

 
At 8:43 da tarde, Blogger Vida Involuntária said...

Obrigada, Henrique,

Não entendi. Onde o preconceito?
Eu tenho uma formasw de expor, algo irónica -manias de escapar a dramatismos sentimentalóides e muito "sérios" - mas eu considero diogno de pedestal aquele que não se mistura, nem se deixa recuperar pelo "esatablishment", depois de ter declarado guerra ao mundo. Logo, vi com pena, a Adília, que muito aprecio, como sabe,aceitar e vestir a capa de clown do mais foleiro "mainstream".
O "maldito", no meu modesto entender, nunca deve ceder a esses cantos de sereia. O aplauso da turba, os prémios, os cargos, a vidinha literária não constam da sua escala de grandezas.
Havia um poema extenso, no me4u tempo de criança o "If"/ "Se" do Ruyard Kipling, que terminava:

(...)

"Então serás um homem!"
E apetecia-me dizer, após isto:

Então serás um "maldito"!

 
At 9:12 da tarde, Blogger Vitor_Vicente said...

Oh caralho e gajos que não foram só escritores, tipo o César Monteiro e o António Variações ? Vale ?

E «malditos contemporâneos», ninguém desencanta nenhum prá amostra?

Foda-se, querem ver que já não há malditos como antigamente ? Tamos fodidos! Maldita só a puta que nos pariu, a nós que já nem fazemos jus ao nosso amaldiçoado ventre ?

 
At 9:33 da tarde, Anonymous AC said...

E o Gomes Leal? converteu-se num vão de escada, antes de morrer, e escreveu um Anti-Cristo antes de Nietzsche.

 
At 10:38 da tarde, Anonymous hmbf said...

Vítor, o César Monteiro foi, quanto a mim, um dos últimos grandes “malditos” (em todas as acepções que possam ser vislumbradas na adjectivação). Grande, enorme, cimeiro: César Monteiro. E há outros, cada um à sua maneira, que o serão o terão sido. Assis Pacheco (?), Fernando Guerreiro (?), Jorge Aguiar Oliveira (?), Al Berto (?)… Na verdade, não é isso que me importa. Queria malditos de pistola na mão? Queria malditos terroristas? Se os houver, estão-se bem a cagar para weblogs como este. :)

ac, Gomes Leal é muito bem lembrado.

Vi, se calhar sou eu que estou a ser preconceituoso. Não sei ao certo a que se refere quando se refere a essa capa de clown que Adília eventualmente terá vestido. Havia um programa na 2 (Portugalmente?) onde ela parecia a falar sobre livros, uma vez via-a no Herman SIC, a propósito do lançamento de «Obra» (o camarada Nuno Moura, grande amigo que se deve estar nas tintas para esta troca de palavras, talvez tivesse algo a dizer sobre isso), mas em qualquer um destes casos, assim como nas crónicas que escreveu na “imprensa dita mais de todos”, eu acho que Adília nunca deixou de ser quem é e o que é: uma grande poeta. Mas dou-lhe toda a razão (se apagar o deve): «O "maldito", no meu modesto entender, nunca deve ceder a esses cantos de sereia. O aplauso da turba, os prémios, os cargos, a vidinha literária não constam da sua escala de grandezas.»

Enfim… proponho um brinde aos “malditos”. Aos nossos, aos dos outros, a todos os que ousaram, ousam, ousarão dizer não, rindo e dançando, proponho um brinde.
Saúde (sem ironia ou como diria um grande amigo: «saúde? de espírito, de espírito»),

 
At 10:40 da tarde, Anonymous hmbf said...

perdoem-me as gralhas. é do vinho

 
At 12:33 da manhã, Blogger Vitor_Vicente said...

Henrique, de pistola na mão não me ocorre nenhum «maldito português».

Agora de picha na mão,com fins terroristas e toma lá que já almoçaste, sei do Pacheco entrar na Portugália, encontrar o Stau Monteiro diante duma travessa de lagostas, pedir-lhe uns trocos pra matar a fome, levar uma nega e responder com uma chuva dourada.

De crimes, não reza propriamente a história da literatura portuguesa. Bom, o Camilo, à la Pico Della Mirandola, ainda raptou umas donzelas para seu belo prazer e belo doer dos conjuges das ditas.

Escritor-assassino, assim mesmo com hífen, faz jus aquele psicopata belga, não me lembra o caralho do nome do gajo...até ía googlá-lo, mas ainda corria o risco de invocar um maldito à séria e à francesa e ser tomado como tal.

 
At 3:36 da manhã, Blogger Vida Involuntária said...

Henrique,

Quanto aos "deveres" de um "maldito", evidentemente que os referi no domínio do paradoxo, ou seja, do lado da adopção dos "não-deveres",como se pode constatar. Isto, porque eu acho que não basta ter diversas preferências sexuais ou dizer quinhentas obscenidades por minuto, para ser "maldito". É coisa mais existencial e profunda.Nem todos os libertinos foram ou são "malditos".Alguns governam-ser lindamente. É por isso, que há para aí muito "poseur" armado nisso, só para o que dá jeito. E mais, nunca conjugo o "deve" para obras ou textos, mas quando a pessoa biográfica vem para o social,performativamenter, com a "tabuleta" de poeta, o estatuto é outro.E as formas verbais , também.

Inté outras conversas.
Vi.

 
At 3:42 da manhã, Blogger Vida Involuntária said...

Errata:
governam-se
performativamente

 
At 3:57 da manhã, Blogger Vitor_Vicente said...

Cara Vi, discordo. Todos os libertinos, os verdadeiros libertinos, são malditos por definição. O inverso, isso, já admito que, e em certos casos, possa ser verdade.

Basta lembrar a biografia do Sade, o malfadado do marquês que suscitava a repulsa dos que lhe eram familiares de sangue azul, dos pseudo-libertários que tomaram a Bastilha, dos beatos que frequentavam os mesmos lupanaraes que ele, da própria arraia-miúda que não o compreendia, enfim de toda a gente e mais alguma.

Os libertinos, os malditos, os próprios poetas fazem sempre das suas pela calada do mundo.

 
At 4:06 da manhã, Blogger Vitor_Vicente said...

O Lautréamont, por exemplo, é maldito e de libertino pouco tinha; ao que consta era pederasta, mas um pederasta não chega para se fazer um libertino.

Consta que na escola os colegas apedrejavam-no, assim como quem apedreja passarecos por lazer.

 
At 5:13 da manhã, Anonymous nanda said...

Penso em Jean Genet. E no Nocturno que lhe foi dedicado por Ary dos Santos:
"Como se fosses noite e me atirasses uma corda de músculos e rosas,
Como se fosses noite e me tivesses deslumbrado com todas as sobras..."

 
At 9:04 da manhã, Blogger blimunda said...

POETAS MALDITOS


Malditos poetas, que disseram tudo
e tudo tão bem dito!

Malditos poetas, que me deixam mudo,
sem um ai, uma súplica ou um grito!

Raios os partam, cada qual maldito!

Malditos, que roçaram no seu voo,
com asas de veludo
o infinito!

Malditos poetas: Eu os abençoo...



adolfo simões muller

 
At 10:06 da manhã, Blogger FAG said...

«Ora deixa-me cá ser maldito»: é assim que funcionam os «malditos» portugueses e muitos dos estrangeiros que são aqui citados pelos doutos comentadores. E quem define e decide quem é «maldito»? São também os funcionários da literatura, escritores e críticos consagrados, acad´micos, administradores das coisas culturais, gajos com nome (fazem por esse nome também com o aproveitamnto dos «malditos» que aceitam).

 
At 10:09 da tarde, Anonymous nanda said...

A propósito de Antonin Artaud. Alguém sabe onde encontrar " O Teatro e o seu Duplo". Ando há uma eternidade à procura deste livro.

 
At 10:27 da manhã, Blogger hmbf said...

Nanda, esse livro encontra-se com muita facilidade. Ainda na passada segunda-feira o vi na Fnac do Chiado. Eu possuo a edição da Fenda, com tradução da grande Fiama Hasse Pais Brandão, reeditada há coisa de 10 anos. A 1.ª edição portuguesa foi da Minotauro, ainda na década de 1960. Mas mesmo que não o encontres na Fnac, encontrá-lo-ás, certamente, num qualquer alfarrabista.

Já agora, deixo aqui o link para o post que esteve na origem destas minhas dúvidas sobre os malditos em Portugal: http://antologiadoesquecimento.blogspot.com/2006/07/o-meu-cinzeiro-azul-45.html . A culpa é de Artaud.

 

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