5.7.06

GISELA

Gisela

Era uma vez uma mulher que tinha um sonho: ser acrobata vaginal. Os seus pai e mãe eram respectivamente cuspidor de fogo e atiradora de facas. Ou seja, empregado de escritório e doméstica. Desde cedo se habituara ao universo dos prodígios, daqueles que diariamente e em surdina se manobram para que um dia surjam no esplendor da sua força ante a surpresa dos outros. Os outros são eu e tu e aqueles que são mais espectadores do que actores mas ela não: queria ser vista, em vez de ver.

Cresceu assim, sem dar conta de que num intervalo do mundo se fizera mulher. Vinha gente de muito longe para a ver lançar bolas de ping-pong e retirar correntes de ferro com 18 metros de comprimento. Apertava o meio dos homens com o poder do seu centro quando se enamorava deles ou lhes queria ralhar. Os homens congratulavam-se e forneciam-lhe muito dinheiro, que ela arquivava com gratidão de vantagem numa caixinha azul onde a imagem breve de santa teresinha lhe acompanhava as horas. A santinha invejou-a tanto que o céu estremeceu e uma chuva negra caiu a desarrumar-lhe os dias. Ficou velha de repente e os amigos deixaram de a requerer. Há coisas que Freud não consegue explicar, pensou, e a sua pele engelhada alisou-se como a sorrir novo sonho.


Rui Costa

2 Comments:

At 1:40 da manhã, Blogger Anarquista Duval said...

As Santas têm dessas cousas...

Gostei da prosa.

(Bolas de ping pong?? :)

 
At 10:58 da manhã, Blogger etanol said...

muito bonito! e a santa teresinha de lisieux era uma grande malandreca.

 

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