18.10.06

A NOITE

Mulheres como feridas.
Picadas nos olhos pela luz.
Olhadas negras a noite em pleno poder.
Com pálpebras pequenas de dar dor. E as lanternas
escuras a chorar a morte dos pais, o seu país.
Daniel, quantas mães tiveste?
Quantas vezes a pila transformada em escada
para o alto?
E a morte, que diz, e o padre Lino que traduziu
“A Nuvem do Não Saber”?
E a virgem_ diz-me que lhe fodes a cabeça com essa angústia
toda metida nos versos/nos trapos/ nas oferendas?
(Tenho pena de ti, sabes, porque te achei grande
de mais para seres tão pequeno.)

Eu gosto delas mas o seu peso
pesa-me.
Elas dão tudo, adormecem com todos os
segredos no interior da minha boca.
Algumas são antigas e sofrem e é
destas que falo. Não gosto de sofrer, de
Beckett, gosto de vinho, de música,
de violência até! Mas falava de trevo,
ao redor delas tu andavas. Tu batias.
Eras uma puta fina, uma violação doce.
Custa-me este ácido de ser uma cicatriz
que lambo a todo o tempo.

Eu nunca lhes pago um sumo.
O meu amor é um bicho de passear ao
perto, a fúria a puxar-me da janela.
Sou duro, sou uma redoma de luz.
Quem quiser passa, entra, senta-se comigo.
Mas tem que passar,
e nunca ajudo ninguém. E eles
chegam, alguns desistem, desses não me queixo.
Vejo o limite mais branco da alegria. Quando
as visões são insuportáveis e tu começas a ter
pensamentos que redimem.
As ostras fazem o mesmo,
qual a novidade?

Tenho fome, tenho sempre fome.
Vou sair de casa como quem busca comida.
Há lâmpadas nos foguetes nas varandas
Vou olhá-las com olhos de aumentar os cães
recomeçar.

Rui Costa

9 Comments:

At 5:15 da tarde, Anonymous Anónimo said...

estupidamente bom
porra. os meus parabéns

 
At 5:33 da tarde, Anonymous Anónimo said...

é vontade de te
dizer Bravo!! Rui

JR

 
At 5:51 da tarde, Blogger MC said...

gostei. muito bom.

 
At 7:02 da tarde, Blogger etanol said...

Bravo! noite vermelha é para os durões.
Maria João

 
At 1:03 da manhã, Blogger margarete said...

«Sou duro, sou uma redoma de luz.
Quem quiser passa, entra, senta-se comigo.
Mas tem que passar,
e nunca ajudo ninguém. E eles
chegam, alguns desistem, desses não me queixo.
Vejo o limite mais branco da alegria.»

:)

 
At 12:17 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Li o teu poema várias vezes.Não para o perceber, mas para saciar-me.Ainda não consegui:)Adorei!PB

 
At 3:43 da tarde, Anonymous Anónimo said...

vou deixar de comentar poemas teus, rui. nunca consigo dizer mal deles!

 
At 9:50 da tarde, Anonymous Anónimo said...

:)
Rui Costa

 
At 2:09 da manhã, Anonymous Anónimo said...

sabe o que eu acho? acho que voce, Rui Costa, é um vulgar tarado sexual que se esconde atrás das suas pequenas poesias, achando-se acima de todos,uma espécie assim, como dizer, de algum deus incompreendido, vítima das (suas) mulheres:"quantas vezes a pila transformada em escada para o alto"?!?! - que coisa pobre, meu caro...ser uma cicatriz que lambo". Tenha dó! que vulgaridade é estilo estilo estilo...words words words

 

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