16.10.06

OLHAR AS ESTRELAS

Há dois modos de olhar as estrelas: ou vemos nelas um fantasma do tempo desaparecido ou, em sentido inverso, olhamo-las como se fossem um sol em gestação. As pessoas podem distinguir-se entre estes dois tipos de ver: as que olham para as coisas arrancando-lhes sempre o fim, mesmo que por antecipação, e as que não vislumbram em qualquer coisa senão o princípio de algo que ainda está por vir. De um modo simplista dir-se-á serem as primeiras pessimistas e as segundas optimistas. Não creio que possamos ser assim tão literais. Sinto-me bem nos lugares de confusão, nos crepúsculos, nas auroras, no lusco-fusco, na declinação dos absolutos. Talvez por defeito de formação, cedo me habituei a ver nas coisas o lado do possível. Não gosto de certezas absolutas, obras acabadas, verdades inquestionáveis. Sinto-me desconfortável no meio das verdades absolutas. Alguns dos livros que amo, da Bíblia ao Livro do Desassossego, alguns dos pintores que admiro profundamente, de Da Vinci a Turner, algumas das coisas que me mantêm vivo, encarnam muito bem os lugares da ambiguidade e do inacabado. O limão possui essa ambiguidade, é sempre um fruto inacabado.

4 Comments:

At 3:43 da manhã, Blogger Vida Involuntária said...

Ora, esta boa elucubração, sobretudo numa coisa chamada "Insónia", é vergonhoso estar a esta hora com zero comentários.

O António José Saraiva -o da Hist. da Lit. Port - tem um livro -das tais jóias de alfarrabista - chamado "Ser ou não ser arte" e que no meu tempo fazia parte das bibliografias de "Literários" na Fac., onde ele declarava que não se acreditava no "Fim dos tempos" porque também não se acreditava no "Princípio dos tempos".
Os humanos têm sempre, mesmo nas tribos mais recônditas, as chamadas explicações cosmogónicas, das origens. Perecíveis como parecemos ser, precisamos desses alibis, para dimensionar espaço e tempo.
Por mim, ainda gosto do velho Lavoisier, que pode aplicar-se a corpos, esperanças, almas, auroras, ocasos ou alquimistas:

"Na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma".

Vi.

 
At 6:40 da tarde, Blogger hmbf said...

Obrigado pelo comentário, Vi. Não tenho esse livro, mas irei procurá-lo. Mas o velho Lavoisier estava enganado: há espécies que se perdem todos os dias para em nada se transformarem. Perdem-se e pronto. E há muita coisa que se cria. Os filhos, por exemplo. :-)

 
At 10:50 da tarde, Blogger Vida Involuntária said...

Os dinosauros também desapareceram, depois da era dos répteis. São coisas da evolução.
E não é do senso-comum que estávamos a falar. Mas de relações energéticas e químicas. De princípios e fins para além do óbvio.

Inté.

 
At 11:57 da manhã, Anonymous hmbf said...

Ah, pois, o senso-comum... as relações energéticas e químicas são um contraponto ao senso-comum… O senso-comum é muita estúpido.

 

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