16.10.06

EXPLICAÇÃO DO POEMA ANTERIOR

Os touros, dizias, também se
aprendem. É como o jazz, dizias,
de que tu tanto gostas. Os recém-nascidos
choram mais__ põe antes pimba verás
o alegramento dos catraios. Ouve cá:
e é o sangue que te ensina. E quanto
pode levar, quanto lavar, - o sangue (a)o
coração? Ora, outra história antiga. Pois.
Amor, ódio, ah coisas assim.

Agora a sério: a frequência não
interessa. Metáfora comigo já sabes:
só as feitas carne, com dor, tesão e
tudo. Vai um gajo pela rua e vê:
um touro, um homem, um poste da
electricidade. Depois pensa: porra,
deixam os touros andar por aqui a
esta hora. Mas não. Era o homem que
pensava isto, calhou-me esbarrar no
seu pensamento.

Se sou mais possante que…
Claro que sim, maçada, por quem me tomas?
Não basta o ar sério brincador esta discreta
fidalguia eléctrica toda margem da cabeça
aos pés ? Está visto, não.
Agora confessa:
Achas mesmo que sou mais belo que um
touro? Não me perguntas, presumo que
sim. Eu cá tenho as minhas dúvidas (Ainda
se fosse o poste). Ser ou não possante, meu
amigo, depende do tamanho do desafio por que
se é capaz de morrer (não temos tempo,
certo?) __ Deixar o touro ruminar os seus
poemas; eu tenho a vela do dragão e as
asas de uma joaninha (digo joaninha porque
me fazem lembrar os bikinis das raparigas,
e já me faltam por cá, embora a minha luta
não seja para ser vista por ninguém).

Descer mais só se fosse broca.
Ou morto, coisa que não sou.
A morte, já se sabe, é para os fracos.


Rui Costa

6 Comments:

At 3:36 da tarde, Blogger manuel a. domingos said...

grande poema, porra!

 
At 5:18 da tarde, Blogger etanol said...

Gostei das asas da joaninha.
Maria joão

 
At 6:58 da tarde, Anonymous Anónimo said...

"Ser ou não possante, meu
amigo, depende do tamanho do desafio por que se é capaz de morrer (não temos tempo,
certo?)":)cinco estrelas, vulgo, *****
PB

 
At 7:18 da tarde, Blogger Vida Involuntária said...

O poema que antecedeu este é um bom poema. Eficaz, clean, multiplicador de sentidos, que quanto a mim não se esgotam no pró ou contra.
Porque contrapõe a força "mais possante" do animal humano (bípede,dotado de cérebro evoluído,civilização e linguagem verbal, etc) aos parcos recursos do animal, que apesar do seu volume, bravura e simbologia primordial, está inevitavelmente condenado à fealdade da derrota e da morte sanguinolenta. Daí a "beleza" de que fala o poema, que está do lado do enunciador.Ainda é possível imaginar que o mesmo enunciador do poema seja taurino de signo astrológico, mesmo que o autor biográfico o não seja.

Claro que a questão culturaL que envolve a "Fiesta" não é de simplismos.E levaria imenso tempo de reflexão, desde as telas de Picasso, aos touros assírios, ao Ribatejo Português, aos restaurantes turísticos espsnhóis que servem bifes dos testículos dos "bichinhos".

Só quis dar-lhe os parabéns pelo anterior poema. Que, a mim, na sua rigorosa eficácia, me pareceu, de qualidade, que dispensa explicação.

Saúde, como diz o Henrique.

Vi.

 
At 1:48 da tarde, Anonymous Anónimo said...

manuel/etanol/PB: a vossa atenção é estimada!

vida in(ês)voluntária: ser percebido às vezes cai bem, embora não seja pra isso que nós cá andamos (ups, cala-te boca).

Rui Costa

 
At 2:47 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Discordo imensamente de voce quando falou que a morte é para os fracos, muito pelo contrário:os fortes são os únicos que sabem encarar a morte com naturalidade. Você parece-me que não a encará, não é?

 

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