26.10.06

Síndroma

A ideia que temos de alguém nunca é definitiva. Sabemos disso quando esse alguém nos diz quem é, do que gosta, o que faz, para que lado dorme. Por isso mesmo a admiração que temos por um outro pode ser circunscrita à admiração que temos por nós próprios, na medida em que esta condiciona a percepção do mundo e, subsequentemente, essa tal admiração que um outro nos merece. É comum adorarmos certas pessoas até elas se nos revelarem, revelação essa apenas possível quando as pessoas se autentificam nos gestos mais espontâneos e, por isso mesmo, confessionais. Em Portugal diz-se que facilmente alguém passa de besta a bestial e vice-versa. Isto é muito verdade, sobretudo se quem classifica for uma besta e não entender que o que há de bestial nas pessoas se resume à sua bestialidade. Há quem não entenda isso e olhe para uma pessoa como se ela fosse apenas e tão só uma das suas virtudes, uma virtude tão empolgada que obnubila todos os vícios. Mas todos nós somos um charco de vícios e virtudes. Basta olharmos com atenção para disso nos apercebermos. Quem julgar o contrário é desatento ou vê novelas a mais.
Adenda: ela e os outros.

6 Comments:

At 9:17 da tarde, Blogger Luisa said...

Ou maniqueísta...

 
At 9:35 da tarde, Anonymous hmbf said...

Ou isso.

 
At 3:47 da tarde, Blogger MC said...

Muito bom, Henrique. Ficamos sempre muito empolgadinhos com as afinidades que descobrimos em alguém, e com toda a "inocência", lhe chamamos "amigo" ou "meu amor". A verdade é que o caminho da amizade e do amor é um percurso sem fim à vista. A menos, que se veja, que não vale mesmo a pena continuar.

 
At 5:40 da tarde, Anonymous hmbf said...

Isso. E exige a percepção dos defeitos. A Yourcenar dizia que o importante é ir cultivando as virtudes, dando-nos conta de que os defeitos existem, estão lá, são parte integrante de qualquer ser humano. Aliás, o ser humano é defeituoso por natureza. Diria mesmo que a sua natureza é, em parte, a natureza do defeito. E aqui, acho eu, nada separa uma beata de um ateu militante. ;-)

 
At 7:11 da tarde, Blogger MC said...

Eu acho que a Yourcenar tem razão. As virtudes, num clima de amoroso respeito, podem sempre "desabrochar" mais. Já os defeitos, meto-os na tua classificação: "a natureza humana...é a natureza do defeito". Por isso, nunca seriam os defeitos razão para nos afastarmos uns dos outros. (Também depende dos mesmos)

No fundo, no fundo é mais ou menos isto: Já que não os podes vencer, ou ignorar, convive com eles. :)

E a nosso respeito, acho que há muito mais coisas que nos unem do que nos separam. Mesmo que vivamos a praí 500m um do outro e nunca nos encontramos. Raio de cidade! :(

 
At 7:11 da tarde, Blogger etanol said...

o melhor é estar logo atento aos defeitos e não adorarmos ninguém, é melhor não criar espectativas em relação aos outros, porque assim, as virtudes depois surpreendem mais.
Maria João

 

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