29.11.06

J. U. said...

E já que estamos a sondar a morte, uma morte boa, era bom lembrarmo-nos dos vivos, daqueles raros que por cá trabalham a literatura e que o fazem de uma forma superior e que já não são novos e que pura e simplesmente não existem para os vivos e para a crítica literária. Assim lembro Vicente Sanches (já nos setentas), um escritor arredio a toda a publicidade e visibilidade pública e que viveu sempre em Castelo Branco. Vicente Sanches não é só um dos muito poucos escritores de excepção do séc. XX, como é o maior dramaturgo português desde Gil Vicente. E para mais em termos de linguagem e de hipnose da linguagem ele é imbatível. Alguns dos seus livros foram editados na segunda metade dos anos 90 pela cotovia mas o essencial está editado pelo próprio e como esses livros fabulosos (para um pós-teatro e para um teatro de aforismos) não estão acessíveis nas livrarias só quem se dignou a visitá-lo tem o privilégio de os ler. Quando o visitei, há poucas semanas, e foi uma visita extraordinária, mesmo com o seu quê de sobrenatural, e lhe perguntei se alguém do teatro alguma vez o visitara ele respondeu-me que não, nunca. Nem ele nunca assistira à representação de uma peça sua, em geral a célebre Birra do Morto. E nem nunca trabalhara dentro de um teatro, e isto porque nunca quis. Bem, e tratou-se de um encontro sobrenatural por muitas razões. Primeiro porque quando entrei na sua enorme casa parecia que estava a entrar na velha casa de um Pascoais ou de um Régio. Mas mal começámos a falar Vicente Sanches como que me testou e começou a contar um episódio que vem num de seus últimos livros (inacessíveis) Van Gogh e Sétimos Aforismos, episódio que ocorreu no ano do centenário da morte (1990) de Van Gogh e de Camilo Castelo Branco. Tratou-se mais de uma visão, pois ele viu no último quadro pintado por Van Gogh, intitulado «Campos sob um céu de tempestade», e transcrevendo o autor, nesse quadro Van Gogh «pintou a fisionomia, e não apenas a fisionomia, digamos: pintou o retrato (o fantasma) - do escritor português Camilo; sim senhores: do homem de S. Miguel de Seide. Que evidentemente Van Gogh nunca viu, nem leu, nem por notícia ou fama conheceu neste mundo em parte alguma...» (Vicente Sanches, Van Gogh e Sétimos Aforismos). O resto não conto, mas é ainda mais extraordinário. Estamos diante de um escritor ímpar e incomparável que está completamente ostracizado, incompreensivelmente. A minha visita (foi uma aventura chegar ao seu endereço e número de telefone) a Vicente Sanches teve como propósito desafiá-lo a escrever para a revista que coordeno. Só mais uma nota: em Vicente Sanches não detectamos o mínimo de agrura e ressentimento em relação ao meio literário que fez e faz de conta que ele não existe. Uma serenidade a milhas da cloaca. E já agora mais uma acha: Vicente Sanches é insuperável na escrita aforística. E é o escritor, o único que pratica até às raias do absurdo a comédia. Volto a dizer, é para mim inconcebível e quase imperdoável que se ignore um autor deste calibre. Até parece que temos génios para dar e vender.
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