28.11.06

J.U. said...

Que dizer... Lembro-me do Cesariny nos anos 80, na segunda metade, quando era um frequentador assíduo de um bar (no Bairro alto) que ficava logo abaixo do Luso, um bar que era completamente fora de moda. Mas nessa altura ele andava rodeado de assessores da cultura do Mário Soares, criaturas abomináveis. E era difícil chegar à fala com ele, pois ele só queria cabritos. Ainda tentei falar com ele do António Maria Lisboa, mas nada e com a agravante de estar rodeado por uma espécie de polícias soaristas que se interpunham, vedavam o acesso ao poeta. Aliás, se repararem bem os poetas mais velhos e consagrados e que gostam ou gostavam de vadiar costumam andar com uma côrte de criaturas deploráveis. Quem conheça o Herberto e tenha convivido com ele nos cafés ali para a Praça da Alegria na segunda metade dos anos 90 assistia ao desfilar de uma fauna que ia de comunistas saídos não se sabe de onde e de outra gente megalítica e só por vezes aparecia um ou outro personagem gratificante, de um Barahona a um César Monteiro. Ainda me lembro de uma longa conversa com o César Monteiro em que me pus a "atacar" os seus filmes, aquele excesso onânico, etc, e no fim ele convida-me para assistente de filmagens, mas entretanto aparece uma loiraça que o envolve e se transforma de repente numa espécie de secretária, de intermediária entre nós. Alta comédia, em suma. Como curiosidade a ligação de César Monteiro a Herberto vem dessa figura para ambos central que fora Carlos de Oliveira. Mas de resto, nessas tertúlias, parava por ali uma fauna de bradar aos céus, que se postava, à espreita, em geral nas mesas que rodeavam a do mestre. O Herberto é um contador de histórias fabuloso, e as de Angola são quase lendárias. E isto tudo apenas para dizer que quando perguntava ao Herberto Helder pelo maior poeta vivo ele sem hesitar afirmava: Cesariny. Mas na sombra de alguém que partiu depois de ter desfrutado tudo que tinha a desfrutar, bem-aventurado, ficou esse outro que foi demasiado cedo e que quanto a mim foi a figura mais potente do nosso surrealismo: António Maria Lisboa. Quando uma tarde dessas perguntei ao Herberto se tinha conhecido António Maria Lisboa ele disse que não. Quando eu no fio da conversa lhe disse que se A. M. Lisboa não tivesse partido tão cedo, etc., etc., ele deu-me a entender que de algum modo ele entregara-se à tuberculose. E tudo isto a propósito de Cesariny.
Comentário deixado aqui.

3 Comments:

At 2:38 da tarde, Anonymous J.U. said...

Henrique:
Agradeço o destaque dado ao comentário, que não merecia.
E já que estamos a sondar a morte, uma morte boa, era bom lembrarmo-nos dos vivos, daqueles raros que por cá trabalham a literatura e que o fazem de uma forma superior e que já não são novos e que pura e simplesmente não existem para os vivos e para a critica literária. Assim lembro Vicente Sanches( já nos setentas), um escritor arredio a toda a publicidade e visibilidade pública e que viveu sempre em Castelo Branco. Vicente Sanches não é só um dos muito poucos escritores de excepção do séc.XX, como é o maior dramaturgo português desde Gil Vicente. E para mais em termos de linguagem e de hipnose da linguagem ele é imbativel. Mais uma nota: Alguns dos seus livros foram editados na segunda metade dos anos 90 pela cotovia mas o essencial está editado pelo próprio e como esses livros fabulosos( para um pós-teatro e para um teatro de aforismos) não estão acessíveis nas livrarias só quem se dignou a visitá-lo tem o privilégio de os ler. Quando o visitei, há poucas semanas, e foi uma visita extraordinária, mesmo com o seu quê de sobrenatural, e lhe perguntei se alguém do teatro alguma vez o visitara ele respondeu-me que não, nunca. Nem ele nunca assistira à representação de uma peça sua, em geral a célebre Birra do Morto. E nem nunca trabalhara dentro de um teatro, e isto porque nunca quis. Bem, e tratou-se de um encontro sobrenatural por muitas razões. Primeiro porque quando entrei na sua enorme casa parecia que estava a entrar na velha casa de um Pascoais ou de um Régio. Mas mal começamos a falar Vicente Sanches como que me testou e começou a contar um episódio que vem num de seus últimos livros(inacessíveis)"Van Gogh e Sétimos Aforismos, episódio que ocorreu no ano do centenário da morte (1990) de Van Gogh e de Camilo Castelo Branco. Tratou-se mais de uma visão, pois ele viu no último quadro pintado por Van Gogh intitulado: Campos sob um céu de tempestade e transcrevendo o autor, nesse quadro Van Gogh " pintou a fisionomia, e não apenas a fisionomia, digamos: pintou o retrato(o fantasma) - do escritor português Camilo; sim senhores: do homem de S. Miguel de Seide. Que evidentemente Van Gogh nunca viu, nem leu, nem por notícia ou fama conheceu neste mundo em parte alguma..."( Vicente Sanches, Van Gogh e Sétimos Aforismos). O resto não conto, mas é ainda mais extraordinário. Estamos diante de um escritor impar e incomparável que está completamente ostracizado, incompreencivelmente.
A minha visita ( foi uma aventura chegar ao seu endereço e numero de telefone) a Vicente Sanches teve como propósito desafiá-lo a escrever para a revista que coordeno.
Como não tenho tempo de corrigir o que escrevi, o comentário vai assim em bruto...

Só mais uma nota: em Vicente Sanches não detectamos o mínimo de agrura e recentimento em relação ao meio literário que fez e faz de conta que ele não existe. Uma serenidade a milhas da cloaca.
E já agora mais uma acha: Vicente Sanches é insuperável na escrita Aforística.
E é o escritor, o único que pratica até às raias do absurdo a comédia.
Volto a dizer, é para mim inconcebivel e quase imperdoável que se ignore um autor deste calibre. Até parece que temos génios para dar e vander.

 
At 2:27 da tarde, Anonymous hmbf said...

Grande J.U., sempre a aprender. Esse Vicente Sanches já está na mira. Desconheço, mas hei-de conhecer.

 
At 1:37 da manhã, Blogger MissPearls said...

E meu Professor de Filosofia no Liceu Nun'Alvares.

Juntamente com o António Salvado, dois excelentes autores a residir em Castelo Branco há muitos anos

 

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