8.12.06

Fragmento #41 – Gato Tigrado

Tenho o computador avariado desde Maio e ainda não o arranjei, a contenção de despesas no momento não me permite qualquer tipo de luxo. Esta situação prolongada tem um aspecto positivo, porque obriga-me a sair de casa para consultar a Internet, vou a uma loja da PT num centro comercial; consultar os e-mails tornou-se assim um bom pretexto para andar a pé quando não chove. Ontem, deparei-me com uma situação insólita quando estava nesta loja: tudo começou quando me atribuíram o computador nº7, pensei logo que sete vidas têm os gatos e por isso o meu e-mail teria alguma mensagem importante. Ao consultar as mensagens, lá estava uma boa proposta de trabalho feita por um amigo, um bom desafio, fiquei entusiasmada apesar de ser algo que não rende dinheiro, mas em termos práticos também não vou gastar, por isso pode-se fazer com gosto. Nisto, espreito o que se passa no Insónia e sinto algo nos meus pés – era um gato tigrado, lindo, fofinho, branco e laranja com os olhos cor de mel, a largar charme e pêlos nas minhas pernas. Fiquei perplexa com aquele ser, dei-lhe uns mimos, reparei que tinha uma coleira vermelha de veludo com um guizo e estava muito bem tratado. Largo o computador e dirijo-me à rapariga da loja, pergunto-lhe de quem é este gato lindo, ela responde que não sabe e que ele acabou de entrar ali agora. Observo como ele se vai passeando na sala, passando o pescoço nas cadeiras e nas pernas dos clientes; vê-se logo que é um gato de apartamento, ingénuo e mimado, entrou ali porque a sala está quente. A rapariga da loja está um pouco à nora, não sabe o que fazer, enquanto o gato vai conquistando novos amigos. Entra um colega da rapariga e faz umas festas no bichano, ele rebola-se no chão, mostra a barriga branca com as patas no ar, brinca com as mãos dele sem mostrar as unhas, dá-lhe dentadinhas de amor. Este gato é mesmo irresistível, muito radioso e civilizado, deve ter fugido por alguma janela e não sabe onde está; tem mesmo ar de quem não se orienta sozinho na vida, deve existir um dono ou uma dona que lhe dá muito amor e neste momento se encontra em pânico à sua procura. Proponho ao pessoal da loja que telefonem para alguma instituição que cuida de animais e que ajudem a procurar o dono. Entretanto, entra na loja um miúdo brasileiro muito engraçado, que está à espera que a mãe termine de falar ao telefone. O miúdo adorou o gato e começou a fazer-lhe traquinices, digo-lhe para ele ter calma e não o assustar – os gatos mesmo quando são domesticados, mantêm reflexos de predadores, eles reagem mal a movimentos bruscos e devem ser tratados com calma. O gato continuava a largar charme por onde passava e o pessoal da loja estava a tentar arranjar alguém que pudesse ficar com ele; eu não o podia levar comigo porque se a Lua o visse passava-se, havia logo zaragata; os gatos entre eles são terríveis em questões de territórios. A rapariga da loja estava encantada com o bichano, mas também tinha um gato em casa. Por fim, a rapariga conseguiu convencer uma amiga a ficar com o gato pelo menos uma noite, porque a União Zoófila apenas o poderia recolher no dia seguinte, para procurar o dono ou dona. Respirámos todos de alívio, eu estava a ficar angustiada ao imaginar este bichano lindo e meigo a andar nas ruas da cidade; ingénuo como é ainda era atropelado, via-se logo que o gato não sabia nada da sobrevivência nas ruas, nem conhece a crueldade dos humanos nos seus espaços públicos. Saí então da loja e fui beber um café, aproveitei para apontar este encontro com o gato tigrado no meu bloco. Passado um bom bocado, vejo a rapariga da loja com os olhos muito tristes, a espreitar para fora do edifício e volto então ao espaço dos computadores. Contam-me que o bichano não queria sair da loja, que quando a amiga da rapariga o veio buscar, ele entrou em pânico, assanhava-se e assoprava quando se aproximava da porta da rua. A rapariga da loja mostrou-me os braços, estavam cheios de arranhões. O gato acabou por se escapulir a alta velocidade. A rapariga e um segurança ainda o procuraram nas redondezas. Eu fui dar umas voltas ao quarteirão, entrei nos cafés e perguntei se não o tinham visto, mas nada. Por fim, voltei para casa triste, a pensar na sorte do gato tigrado, ele era tão charmoso, meigo e ingénuo. Espero que as suas sete vidas o tenham protegido, se bem que foi a curiosidade que matou o gato, como se costuma dizer; na melhor encontrou o caminho para casa, ou alguma alma caridosa o descobriu e procurou o dono, porque aquele gato maravilhoso nunca poderá sobreviver muito tempo numa selva de betão.

Maria João

2 Comments:

At 11:20 da manhã, Anonymous sara monteiro said...

Que história!:)
Uma vez entrou-me um desses pela casa dentro, mas não era charmoso: enorme, peludíssimo, altivo, cinzento. Entrou de cabeça erguida, e calmamente percorreu todas as assoalhadas do apartamento. Eu, encostei-me à parede, quase sem respirar, o tempo todo que a criatura por lá andou. Por fim, cansado de ver coisas, saiu. E eu corri a fechar-lhe a porta.
Desculpa o longo comentário, lembrei-me ao ler a teu post. Abraço

 
At 3:23 da tarde, Blogger etanol said...

Era um vadio, o filho da puta!
Maria João

 

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