23.1.07

O LAMENTO DE ZIZI

Estou apaixonado pela doença do riso
far-me-ia muito bem se a tivesse –
usei as esplêndidas cabaias do Sudão,
pus os magnificentes halivas de Boudodin Bros.,
beijei as Fátimas cantantes do chulo de Adém,
escrevi gloriosos salmos no café Hakhaliba,
mas nunca tive a doença do riso,
então para que sirvo eu?

O comerciante gordo oferece-me ópio, kief, haxixe,
até suco de camelo,
tudo é insatisfatório –
Oh noite amarga e terrível! tu de novo! Terei ainda
que tirar os meus dentes irreais
despir o meu irrisível eu
pôr a dormir esta cabeça melancólica?
Não sou nada sem a doença do riso.

O meu pai apanhou-a, o meu avô também;
certamente o Tio Fez há-de apanhá-la, mas eu, eu
a quem faria tão bem,
apanhá-la-ei alguma vez?

Tradução de Manuel de Seabra.

Gregory Corso

Gregory Corso nasceu em Greenwich Village, no dia 26 de Março de 1930. Filho de uma jovem adolescente que o abandonou para regressar a Itália, seu país de origem, passou a infância fugindo de orfanato em orfanato e com várias famílias na qualidade de filho adoptivo. Trabalhou como operário, esteve preso – onde começou a escrever poesia -, foi empregado do Los Angeles Times, apareceu num filme de Andy Warhol. Trata-se de um dos grandes nomes do movimento Beat, juntamente com Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs, entre outros. Estreou-se em 1955, com The Vestal Lady and Other Poems. Faleceu no dia 17 de Janeiro de 2001, vítima de cancro.

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