6.2.07

É IMPRÓPRIO SER FAMOSO

É impróprio ser famoso
Pois não é isso que eleva.
E não vale a pena ter arquivos
Nem perder tempo com manuscritos velhos.

O caminho da criação é a entrega total
E não fazer barulho ou ter sucesso.
Infelizmente, nada significa
Como uma alegoria andar de boca em boca.

Mas é preciso viver sem pretensões,
Viver de tal modo que no fim de contas
Venha até nós um amor ideal
E ouçamos o apelo dos anos que hão-de vir.

O que é preciso rever
É o destino, não antigos papéis;
Lugares e capítulos de uma vida inteira
Anotar ou emendar.

E mergulhar no anonimato,
E ocultar nele os nossos passos,
Como foge a paisagem na neblina
Em plena escuridão.

Que outros nesse rasto vivo
Seguirão o teu caminho passo a passo,
Mas tu próprio não deves distinguir
A derrota da vitória.

E não deves por um só instante
Recuar ou trair o que tu és,
Mas estar vivo, e sói vivo,
E só vivo – até ao fim.

Tradução de Manuel de Seabra.

Boris Pasternak

Boris Pasternak nasceu em Moscovo a 10 de Fevereiro de 1890. Filho de um pintor e de uma pianista, cresceu num ambiente intelectual que lhe que lhe abriu o apetite por várias áreas da cultura, da música à literatura, passando pela filosofia. Publicou o primeiro livro de poemas em 1914, mas apenas conseguiu alguma notoriedade quando, em 1922, deu à estampa o volume Sestra moya zhizn. Autor de poemas e de pequenas histórias, traduziu poetas como Shakespeare, Goethe, Schiller, Kleist, entre outros. Em 1957 publicou Doktor Zhivago, o seu único romance, na sequência do qual lhe foi atribuído o Prémio Nobel da Literatura. Faleceu no dia 30 de Maio de 1960.