3.6.07

Boas Novas #2 – As crianças


Se existe algo que me deixa feliz e me limpa a alma são as crianças, não só as pequenas, porque também conheço alguns adultos que não perderam a inocência na totalidade, que mantêm acesa uma certa espontaneidade nas acções, no que dizem e surpreendem-me tal como as crianças. Alguns músicos que conheço são assim, também poetas, artistas, professores que trabalham no dia-a-dia com crianças e até mesmo cientistas; não sei se manter alguma espontaneidade, alegria, inocência e curiosidade com o mundo quando se cresce estará relacionado com a profissão que se tem, talvez a sensibilidade ou as boas memórias de infância contribuam para isso, não tenho a certeza, mas sinto-me atraída por pessoas que são assim. Bom, mas as boas novas que vos vou contar não têm directamente a ver com os adultos, mas sim com as crianças: no fim-de-semana passado assisti a um concerto maravilhoso na reitoria da Universidade de Lisboa; foi o 2º aniversário do Coro Infantil da Universidade, que é dirigido por Erica Mandillo, que tem feito um trabalho louvável com crianças. Tenho pena de não ter aqui o som para vos mostrar um pouco do que ouvi, mas fiquei arrepiada quando este coro de anjos interpretou “Old Abraam” das “Friday Afternoons Songs” de Benjamim Britten, acompanhados ao piano por João Lucena e Vale. Quando digo isto, não fiquem já desconfiados, tenho que vos explicar que tenho uma relação especial com a música do séc.XX, ao contrário da maior parte dos meus colegas cantores eu fico feliz quando oiço uma dissonância ou interpreto peças de música contemporânea – isto deve-se talvez ao facto de quando estava a estudar nas Belas-artes frequentar os encontros de música contemporânea na Gulbenkian, onde vi e ouvi concertos memoráveis, ou também devido a uma coisa que não se explica que é a empatia. Pois é, ouvir crianças a cantar com prazer, expressão, postura em palco, afinadas, seguras e ainda por cima uma peça do séc.XX difícil, deixou-me sem palavras. É claro que tenho uma relação especial com estes miúdos cantores que ensaiam na Aula Magna aos domingos, tal como eu o faço de há cinco anos para cá com o Coro de Câmara desta Universidade; muitos destes miúdos são filhos de cantores do meu coro, estrearam-se em concertos ainda quando estavam dentro da barriga das suas mães, mas também estão lá outros miúdos maravilhosos que não tiveram este percurso. Neste concerto, o Coro Infantil da Universidade de Lisboa contava com a visita e participação dos Meninos Cantores do Município da Trofa, dirigido por Antónia Maria Serra e acompanhados ao piano por Rui Martins que foram uma verdadeira surpresa: cantaram “As cançõezinhas da Tila” de Fernando Lopes-Graça, com letras de Matilde Rosa Araújo. Ao ouvi-los, confesso que chorei (mas discretamente, ninguém viu) porque era o séc.XX em português, no melhor da nossa língua cantada, com uma interpretação muito própria e cuidada, um grupo de cerca de 30 miúdos com idades variáveis, sincronizados, afinadíssimos a cantarem a várias vozes (e aquilo é Lopes-Graça, caramba, quem conhece a sua música sabe do que falo), bem ensaiados, com uma presença alegre, descontraída e foram brilhantes. Na segunda parte do concerto, o Coro Infantil da Universidade foi acompanhado pelo Agrupamento Infantil do Conservatório de Lisboa (orientado por Joana Amorim) e interpretaram uma peça que lhe foi dedicada e composta por Vasco Negreiros em 2006. Os textos eram conhecidas lenga-lengas infantis e o coro foi acompanhado por uma pequena harpista, uma guitarrista, flautista e violinista. Depois o Coro de Câmara teve uma pequena participação com três canções das Dezassete canções tradicionais brasileiras de Lopes-Graça (chamaram-nos papás quando nos apresentaram!) e também cantámos “Ali Thioba”, uma canção tradicional do Senegal, em diálogo com os coros infantis ali presentes. O espectáculo terminou com os dois coros infantis a interpretarem a música do filme “Os Coristas”, filme que divulgou muitíssimo junto do grande público esta actividade maravilhosa que são os coros infantis. Quando terminou o concerto, olhava os miúdos a lancharem – houve também um enorme lanche organizado pelos pais das crianças – e pensava como deve ser maravilhoso para eles o canto e o espaço onde ensaiam fazer parte das suas memórias de infância quando crescerem, vai ser com certeza um espaço de liberdade interior que os acompanhará para sempre, acho que o Coro Infantil da Universidade de Lisboa e a Erica Mandillo, assim como projectos semelhantes a este são uma enorme limpeza da alma e contribuem para a construção de um mundo melhor no futuro.

Maria João

2 Comments:

At 10:07 da manhã, Blogger Luis Eme said...

Gostei de te ler, Maria João.

E penso que nós, mesmo com trinta, quarenta anos, somos sempre mais inocentes (talvez distraídos seja mais certo...) que as mulheres...

 
At 11:19 da manhã, Blogger etanol said...

Às vezes, Luís,às vezes!
:)
Maria João

 

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