19.6.07

LILIPUT

Catorze anos é muito tempo, o tempo de uma vida, uma vida jovem, é certo, pelo menos no corpo de um homem. Mas muito tempo nas patas de um cão. Catorze são duas vezes sete anos, número mágico vezes dois, de uma magia ancestral difícil de explicar. Catorze são os anos das cores do arco-íris sobre os sete mares, de sete acordes de guitarra distribuídos pelos dias da semana. Catorze são as maneiras de dizer sou-te fiel na voz de um cão. Quem sabe o que dizem quando se sentem ofendidos? Quem sabe o que pensam quando se entregam à respiração dos donos como sóis encostados ao calor das manhãs? No soalho vidrado da cozinha vejo-te dar os primeiros passos, os primeiros passos de catorze passos tão custosamente sofridos. Vejo-te no caminho das gretas a espreitar para fora de casa, o faro atento aos raios, à luz, aos ombros das plantas. Vejo-te brincando a meio do dia com trapos de brincar, e depois ladras para a fome na tua província secreta de pedir. Tiveste a raça das grandes mães, foste um uivo inestimável no caminho das dores domésticas. Por cima de ti, agora, a memória do teu sono encostado ao calor dos corpos humanos, manhãs suspensas, um telhado de terra onde brotarão raízes de plantas lindíssimas. Sobretudo, plantas que dancem ao sabor do vento a memória do teu uivo.

4 Comments:

At 8:21 da tarde, Blogger Sujeito Oculto said...

O triste é que já sabemos desde o começo.

 
At 9:32 da tarde, Blogger rui said...

Henrique, a este texto só faltava ser um soneto para ser perfeito.

 
At 6:34 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Muito, muito obrigada!A ti e à Liliput.
Liliput que deu alma aos meus dias, quando, na solidão que me foi imposta, me lambia as pernas e me corria para o colo!Liliput que me ensinou de maternidade e de amizade!E de envelhecer também!Liliput, extensão de mim própria.Foi um ciclo que terminou -deixei definitivamente de ser filha para entrar no mundo das mães, aquele em que aprendemos a conviver com as ausências dos que nos são tão queridos.Adeus, Liliput!MF

 
At 9:11 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Quero fazer um comentário mas a intensidade da emoção bloqueia-me o pensamento e as mãos só conseguem secar lágrimas... Curiosamente, Liliput escreve-se com sete letras!

 

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