26.9.07

donamorte.6

Eu não acreditava na Morte. Eu próprio fiz questão de lho dizer. Não e não, e ela foi embora, com a cauda murcha entre as pernas a sorver as últimas borbulhas da agoniada coca-cola. Ao fundo da rua voltou-se para trás e a sua face elevou-se num último esgar desalentado, como quem atravessa a imagem indisponível de um amor sempre depois do próximo horizonte. Uma lágrima caiu-me. Sou um homem sensível. O pingo salgado rolou-me pelo peito, cruzando o matagal de pelos, volteou a baía do umbigo, trepou, deu-lhe a volta por cima e por fim desceu, acalentado de novo vigor, acabando por estacionar às portas do tesundo. Isto fez-me lembrar aquela cena do filme mais romântico que há, quando a mocinha espera por ele e ele não vem, porque está a jogar às cartas a dinheiro, e depois não consegue partir o espelho e ainda por cima leva um tiro do estalajadeiro.
Como não sou de ficar a curtir mágoas muito tempo, e vendo a cauda murcha d’Ela prestes a contornar a esquina, bradei:

- Ó Morte, anda cá!

Nada. O som pardo da última brisa da tarde, um leve odor a atum. Insisti:

- Ó Morte, se realmente és uma empresa credível, respeitadora de todas as normas de excelência e qualidade, conforme nos asseguras nos spots da TV, mostra-te a este teu potencial cliente!

Uma pausa. O tempo suspenso sobre o atum, sobre a via. Plúmbeo fim de tarde. Varadero. San Xenxo.

E a Morte quis.

Ó retinada sorte, capitel e plumas!
sónicos vergeis, trompeta marchetada
a vícios de marfim, de gadelha dourada
e crica assim no etéreo mono vi nenhumas.
E pois se de punheta hiante entouças glória,
Infiel, desfaleça-te o traseiro em minha história.



Alcides

2 Comments:

At 11:20 da manhã, Blogger etanol said...

O Alcides morreu?A morte é uma grande puta!
Maria João

 
At 7:13 da tarde, Anonymous Anónimo said...

A Morte tem sempre desculpa!:-)
PB

 

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